A cidade: O sistema mais complexo desenvolvido pela humanidade

Programa de pós-graduação Fundação Politécnica de Catalunya – Cátedra UNESCO
Tecnologia, desenvolvimento sustentável, desequilíbrios e mudança global: Uma análise interdisciplinar do estado do mundo

Jordi Badia
Sabadell, 11 de julho de 1997

Tradução: Curitiba – Agosto 2020

O curso de pós-graduação nos deu uma ampla visão multidisciplinar do estado do mundo. Porém, talvez tenham faltado as visões de alguns pontos de vista menos comuns. Além disso, alguns pontos de vista que foram apresentados pareceram parciais ou tendenciosos, – o que, de certo modo se encaixa na realidade humana das opiniões encontradas e confrontadas. De qualquer modo, é preciso reconhecer: houve um derramamento de dados e mais dados de todos esses mundos parciais, que excedeu a nossa capacidade de retê-los de forma coerente, dificultando com isso a possibilidade de trabalhá-los com certa racionalidade.


Introdução:


Este é o objeto da obra: que tamanho de complexidade somos capazes de assimilar? Até onde podemos conhecer nosso entorno de modo a recriá-lo coerentemente sem destruí-lo? Se estamos estabelecendo critérios de evolução e sustentabilidade – valores para o meio ambiente natural e cultural, do que deve ser a vida para a humanidade, para os seres vivos, para os ecossistemas e para o próprio planeta – como será possível gerenciar tantas informações de forma equilibrada?


Do ponto de vista ecológico e ambientalista, os diagnósticos do estado do mundo e as propostas – 0’7, desenvolvimento sustentável, Agenda 21, Fator 4 – apontam para uma mudança de conceitos, valores e modelos, que são propagados como objetivos prioritários e unidirecionais para um futuro melhor. No entanto, essa mensagem não chega de forma clara nem à população, nem às instituições, e nem mesmo organizando grandes cúpulas mundiais de organizações internacionais como a ONU.


Proponho um tour mostrando as falhas do remetente, do meio, da mensagem e do receptor. E, sobretudo, do ambiente, que em última instância corresponde à cultura atual em que estamos inseridos e da qual queremos “mutar”.

Proponho falar sobre isso tomando como desculpa a cidade, pois é o espaço onde mais informações culturais circulam. É a estrutura física mais poderosa da humanidade, e, ao mesmo tempo, um reflexo das pautas, padrões, meios e objetivos comuns.


Por fim, eu me aventuraria em algumas conclusões sobre a capacidade cognitiva coerente do ser humano. Refiro-me à relação entre a quantidade de informação de que precisamos para viver hoje, a qualidade e a complexidade dessas informações e a capacidade de digerir-las e medita-las coletivamente como cultura. Daí decorre também o potencial de trabalho, estudo e ação de forma transdisciplinar, com uma abordagem abrangente, global e integrada, que devemos alcançar na construção de um espaço comum: A Cidade.

A exposição do problema, por si só, já é bastante complexa. Certamente não é possível enfrentá-lo apenas de forma racional. A filosofia nos diz que não é possível mostrar um sistema a partir de dentro do próprio sistema, pois a linguagem da descrição também faz parte dele, e nada pode ser descrito em si mesmo. É necessário situar-se em um nível superior para ser capaz de observar objetivamente.

Estamos em um momento em que a humanidade está dando um passo qualitativo transcendental, comparável àquele em que o homo tornou-se sapiens sapiens. Foi nesse instante da pré-história, que passamos a nos reconhecer de forma distinta aos outros seres do planeta, tomando consciência do nosso tamanho e de nossas capacidades. Faz poucos anos que estamos começando um processo de reconhecimento da nossa casa: o planeta Terra. Por um lado, porque obtivemos meios de informações capazes de nos mostrar a Terra vista de fora, do espaço, por outro, porque hoje dispomos de meios que nos permitem acessar, quase imediatamente, informações vindas de qualquer parte do planeta (excluindo as informações dos balcões de informação).

Atualmente, nas escolas, explica-se o problema da desflorestação e a desertificação ou as relações de subdesenvolvimento no chamado Terceiro Mundo, e os alunos já começam a adotar modelos globais de raciocínio, para se adequarem às suas próprias experiências locais. Ou seja, ainda há um longo processo de readaptação que os educadores precisarão percorrer para alcançar um corpo próprio de referências e um contexto educacional coerente.


Contudo, não temos escolha a não ser explicar o sistema a partir do próprio sistema. Caso contrário, seremos conduzidos de volta às abordagens “progressistas” dos anos 1950, com metodologias de especialização que só permitem observar os fenômenos de forma isolada e a partir de outra parcialidade.


A capacidade humana de dar esse passo ainda está por ver, e envolve a introdução de conceitos como:
sincronicidade (exposta por C. Jung (ano), e extraída da sabedoria chinesa); a recente teoria do caos, (autor ano) (que mesmo ao nível do léxico, reintroduziu os conceitos de diversidade, anarquia ou aleatório, no sentido positivo); a capacidade de conhecimento intuitivo confiável; os campos morfogenéticos (Rupert Sheldrake 1990); a capacidade de consenso (do latim: consensus, termo da sociologia relacionado à consciência coletiva por um lado e ao desenvolvimento social por outro); a capacidade de aprendizado e adaptação contínua, que exige um esforço a mais de desinibição social e pessoal; e em última análise, envolver a determinação de alguns valores mínimos, como a sabedoria, o amor e a liberdade.

No momento, o problema vem se tornando cada vez mais complexo, então eu vou avisá-los de que ao longo da exposição surgirão dois níveis distintos, entre os quais irei alternar de um ao outro sempre que necessário:

O problema em si > < a exposição conceitual do problema

Os seres humanos são o elemento executor mais poderoso que altera a dinâmica natural do planeta. São os únicos seres no mundo capazes de transformar quase inteiramente a superfície da Terra. A humanidade tem sido capaz de todo esse “desenvolvimento” da espécie, graças à capacidade de formar um sistema de relacionamento especial: A Cultura. Esse sistema permite gerar informações artificiais, muitas vezes derivadas a partir de informações naturais, além de funcionar como um sistema auto regenerativo. E dentro das culturas, as linguagens – como define N. Chomsky (Ano) – são ferramentas, mecanismos e leis, paralelos aos mecanismos naturais, do que chamamos da “física” da relatividade” e “física quântica “.

Realmente percebemos essa característica? Uma verificação rápida:

O conceito de “desenvolvimento sustentável” segundo a Comissão Brundtland ‘ 87

  Essa forma de desenvolvimento é aquela que atende às necessidades da geração presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades.


Não Estamos lendo?:

  Essa forma de desenvolvimento que atende às necessidades da geração humana presente sem comprometer a capacidade das gerações humanas do futuro atenderem às suas próprias necessidades.

A concepção antropocêntrica da era moderna no “mundo ocidental” implica esquemas linguísticos – e, portanto, mentais – em que o homem ocidental é o referente inominável (anônimo?), aquele que não precisa ser mencionado porque todos o sobreentendem. É uma posição semelhante à do deus anônimo de algumas religiões?

Até onde percebemos que estamos organizando o discurso humano em termos como:

  – Os níveis de CO ² são muito altos.
– Devem ser preservadas as florestas tropicais da exploração madeireira indiscriminada.
– Algumas reservas de pesca já foram esgotadas.

Vocês percebem que é realmente necessário expressar-se em outros termos, a fim de integrar o restante da natureza de forma equilibrada?

  -Os níveis de CO² resultantes das emissões da sociedade ocidental são extremamente elevados. Essa concentração pode parecer elevada de mais no percentual da mistura de gases atmosféricos, mas não o é para os vegetais, que respiram CO².
– Homens e mulheres em todo o planeta devem preservar as florestas das zonas tropicais contra a exploração madeireira indiscriminada que estamos praticando.
– Várias espécies de peixes que integravam ecossistemas marinhos foram exploradas  por humanos que vivem nos países que chamamos de primeiro mundo, e essas reservas naturais acabaram esgotadas após serem transformadas em capital pesqueiro.
   

Até agora, falamos sobre destruição e exploração mal compreendida ou mal gerenciada, sob a perspectiva do indivíduo humano ocidental. Mas essas ações foram realizadas apenas para sobreviver? Ou foram motivadas por algum preceito que prometia melhorar o homem, seja pessoal ou coletivamente? Na verdade, toda essa espoliação ocorre em nome do chamado progresso ocidental. A partir da análise econômico-política das teorías Dependentistas (CEPAL 1980) (de C. Marx) é possível fazer uma reflexão de que o capitalismo funciona como uma ferramenta simultaneamente destrutiva e progressista. Mais ainda, ele nos convida a buscar um sistema dialético capaz de considerar o positivo e o negativo, para então agir em consequência.


Até recentemente, o homem ocidental considerava-se subjugado pela natureza, exposto a ela e sofrendo de insegurança. Para resolvê-lo, inventou um complexo sistema sociocultural que tem seu mais alto nível de representação na cidade.

Mas como sabemos, existem culturas que não se consideram ameaçadas pela natureza. No oposto polar desta reflexão intelectual marxista, temos o exemplo vitalista dos povos do interior da Amazônia, que não praticam essa dinâmica, nem da espoliação nem do progresso.

E em outro sentido, hoje, tanto os “sucessos” alcançados na frente da natureza, como uma educação de reencontro com o ambiente natural, faz com que esse medo à floresta diminuia na visão do mundo de Ocidente.


Existe uma via intermediária? É necessário escolher uma rota intermediária? Com tudo, queremos escolher nosso caminho?

0- O Planejamento

A mais poderosa das criações físicas humanas é a cidade, pois é o ecossistema que ela cria para o apoio estrutural de sua vida social. É também a criação mais poderosa de várias maneiras: é a mais complexa entre todas; é a que mais utiliza energia-matéria em sua construção; é a que envolve o maior número de subsetores socioculturais e de produção inter-relacionados; é a que consome mais matéria-energia para sua manutenção; e assim por diante.

Na verdade é tão complexa que, atualmente, não existe nenhuma entidade capaz de concebê-la ou percebê-la em sua plenitude operacional, e poderíamos até questionar se há alguma capaz de idear ou planejar sua estrutura básica. Desde então, e ainda hoje, a cidade é compreendida em partes, por áreas ou por zoneamento, e os resultados desse tipo de análise e planejamento, ou “laissez-le faire“, são exatamente o que encontramos ao percorrer suas ruas.

I. História

A cidade, originalmente aldeia, surge paralelamente ao assentamento agrícola. A história, entendida a partir da óptica dos grandes degraus evolutivos que transformam rapidamente sociedades humanas, distingue claramente a revolução agrícola e, seis mil anos depois, a revolução Industrial, enquanto a função da cidade como um fio evolutivo contínuo, é desprezada.

Essa visão em degraus, contou a história do sistema produtivo, mas não do sistema de consumo.
Por outro lado, as teses historiográficas mais difundidas nos explicam o mundo de uma perspectiva da história sempre imersa no capitalismo, entendendo que o sistema humano global sempre funcionou por esse método e, portanto, prioriza a análise do consumo em vez da produção. A Teoria Clássica do Desenvolvimento (WW Rostow 1970) define o pais desenvolvido como aquel que atingiu o “consumo de massas“.

Além disso, a partir das teses dos ecologistas, propõe-se uma nova etapa de análise ainda mais integral, realizada por meio de auditorias ambientais. Independentemente de onde sejam produzidos os elementos destinados ao consumo urbano (alimentos vegetais, fábrica, robótica, informação ou arte), todos são consumidos na cidade e nela se transformam em lixo. Eles se concentram neste espaço denso que proporciona o máximo benefício na distribuição.

Deve-se notar que essa concentração começou desde a implantação dos sistemas agrícolas, com a concentração da produção de alimentos em vez de colheita (colheita no sentido caçador-coletor). Ao longo da história, a concentração justificou a existência da cidade, enquanto a cidade desconcentrada, equivalente à população dispersa, caracterizou-se por pouca coesão. Na verdade, essa lógica, não é totalmente negativa do ponto de vista da eficiência da distribuição equitativa, mas, ao ser desvinculada de qualquer limitação histórica, encontramos núcleos tão densos (como buracos negros), que estão entrando em colapso em seu próprio interior.

Este fato – a concentração – gerou, desde os primeiros assentamentos, o “excedente” e, com ele, o tempo livre para outras funções e diferentes formas de atividade além da agricultura, como o artesanato-tecnologia, ou como a organização (geralmente hierarquização) de funções individuais dentro da comunidade, bem como o controle de toda essa operação, por exercitos e guardas armados, por definição as peças básicas de qualquer imperio.

Até o século XVII, antes da aplicação tecnológica de energia mecânica aos modos de transporte, a cidade viveu de forma autossuficiente, sustentando-se com os produtos agrícolas e tecno-artesanais da região próxima, e, havia também o acesso, a alguns mercados exóticos nas grandes regiões geofísicas, como o Mediterrâneo ou a Rota da seda – basta lembrar das cidades-Estado do norte da Itália do século XV.

É a partir do uso do vapor, dos combustíveis e, mais tarde, da eletricidade, que a capacidade da cidade de garantir seu abastecimento se diversifica e, ao mesmo tempo, em que o controle é delegado nas mãos dos sistemas imperial-coloniais, lembrando-nos que a força bruta dos militares desempenhava aí um papel central.

Essa separação-identificação do poder central e das necessidades da região de influença, esteve presente em toda a história em diferentes graus e formas, desde cidades-Império como Roma, até cidades-estado como Veneza, passando por todo um espectro intermediário de capitais imperiais, como Toledo ou Londres, e cidades de controle de fluxos, como Sevilha do século XV ou Nova York no início do século XX, etc.

Seria um interessante trabalho de pesquisa realizar um estudo da história da relação energia-cidade, para verificar como a cidade sempre foi o controlador dos grandes pacotes de energia de um país: desde a formação de impérios a partir de cidades localizadas nos deltas dos rios, até a absorção das energias naturais geradas pelas cachoeiras nas montanhas, ou nas bacias de mineração, anulando a prosperidade dos núcleos alternativos da população, que acabaram sendo reduzidos a colônias febris ao longo do extenso território europeu.


Hoje, quando o mercado internacional permite a todas as cidades do mundo desenvolvido, formando áreas metropolitanas que abrangem grande parte da Europa, a costa oeste norte-americana ou a costa leste, garantam seus suprimentos provenientes de qualquer parte do planeta, ocorre que na outra extremidade se torna cada vez mais evidente a necessidade de aproximar o governo da própria cidade, para garantir a governança e possa controlar e gerenciar as soluções de suas demandas. Neste sentido, todo governo democrático está delegando competências para mais órgãos locais, promovendo empreendedorismo social, cooperativas, e parcerias público-privadas, trazendo a gestão da administração para mais perto do cidadão e, propondo programas de participação cidadã nos conselhos civis, com o objetivo de envolver os vizinhos à administração da cidade, buscando reverter essa longa dinâmica histórica que vem separando o cidadão da Cidade.

II. Identificação

A função bio-social da cidade é frequentemente abordada como o espaço em que a comunidade resolve as necessidades da comunidade (humanidade), como a proteção das inclemências climáticas e da coletivização de funções especializadas para o melhor desempenho do grupo. O provérbio alemão diz: “O ar da cidade me liberta”. Um ideal que incentiva o nascimento, crescimento e manutenção da cidade. Neste momento, essa dinâmica tem se tornado extremamente complexa com o objetivo de prevenir qualquer risco geofísico, climatológico, fornecimento de alimentos, água, energia, higiene sanitária, criação industrial ou intelectual, etc. Mas na medida que o mundo vem completando suas relações multinacionais, também vai concluído as relações multi-cidadãs, e torna-se mais dévil o acostamento da cidade à sua região natural. Este estado leva aos cidadãos da grande cidade para situações extremas de amor e ódio, pois ao mesmo tempo em que estão renegando a cidade nos fins de semana, formando longas multidões de saída e entrada nas estradas de pedágio, também abençoam enlouquecidamente os eventos de representação internacional a que seus líderes se comprometem. O ato de fugir da cidade durante o tempo livre é, ao mesmo tempo, a busca pela liberdade perdida na cidade, e a descarga do estresse gerado pelo ritmo frenético da sociedade urbana, e mais, também significa novas formas de urbanização em casas em densidades muito baixas, espalhando a urbanidade por todo o território de forma dispersa, inclusive invadindo reservas naturais.

Atualmente, há apenas a identificação de uma oferta cultural e de lazer no centro urbano. A residência nos bairros suburbanos, ou o trabalho nos distritos industriais, também fora da cidade, dissolveram o conceito da cidade humana. A cultura que encontramos na cidade não é mais uma cultura perdurável mas de usar e jogar-no-lixo, que nem os “sucessos” de música da rádio e das baladas, os “most sellers”, as novelas repetitivas, os eventos anuais da cultura institucional, ou roupas de marca. Mas todos nós devemos ser gratos por ter tantas oportunidades, e de fato é compensado com a verdadeira oferta cultural de bibliotecas e universidades, muito mais abundantes do que no espaço rural, por uma questão de marketing. Sabemos que a cultura que chega às aldeias é principalmente a telenovela. Será que esse fator negativo explica por que as pessoas estão ficando nas cidades ao invés de povoar de forma equilibrada as regiões rurais? E uma pergunta sarcástica mas que explica sinteticamente muitos outros porquês, do porque a juventude vai para a cidade, “a ansia de cultura”.

Em relação ao próprio espaço da cidade, a complexidade do movimento e do deslocamento dentro destes centros, tem ficado difícil em sua forma, o que torna igualmente difícil adquirir um conhecimento deste espaço e de sua representação cartográfica mental, e, em última análise, provoca a impossibilidade da identificação espacial e pessoal por parte de seus cidadãos.

O cidadão que mora na cidade, tem em mente os locais de necessidade: a loja, o trabalho, a escola das crianças, o centro histórico, o centro comercial, o shopping no entroncamento rodoviário para passar a sexta-feira à tarde comprando, etc, mas é incapaz de se envolver em uma melhoria conjunta no bairro através da Associação de Vizinhos. Ele não conhece seus vizinhos nem para compartilhar o carro, a antena de TV satélite, ou o wi-fi.

III. Relacionamento

Estão envolvidos tantos agentes na formação e manutenção da cidade que atualmente excedem em medida o conceito tradicional da cidade: As “Big Trust Corporations” são organizações para manter da vida na cidade: Carrefour – Big – Pão de açúcar, – Nestle – Novartis – as farmacêuticas, e tantos outros. Mas ao mesmo tempo, excede o imaginável por um humano, a quantidade de inter-relações entre pequenos agentes como: as múltiplas redes de abastecimento, processos industriais e de serviços locais de todos os tipos, treinamento técnico-inteletual para interagir com eletrodomesticos digitais, os diferentes estilos de subculturas, e a própria administração da cidade…

O grau de relacionamento dos indivíduos na cidade é uma faca de dois gumes que aceitamos. Na cidade podemos encontrar o grupo de relacionamento “ideal”, pois a multiplicidade de opções possibilita que mais de um indivíduo se encontre e colabore em projetos comuns, ou seja, o associativismo em estado puro. Mas também a aglomeração na rua, causa a sensação de solidão, ao estarmos cercados pelos mesmos que ignoram nossa presença. Esta situação é comum ao se mover na cidade, e nunca há um grupo tão coeso que se adapte a todas as circunstâncias individuais, de modo que a Cidade separou definitivamente os serviços comuns para cada indivíduo, e a burocracia impôs seus horários, “resolvendo” as necessidades de cada cidadão individualmente.


As cidades são “pequenos” ecossistemas criados pelas comunidades humanas, e a cidade que é construída, por efeito ou por padrão, é a forma física do não-programa civico-político da comunidade que o habita.

Atualmente, a cidade excede a quantidade de informações que um humano pode assimilar. As metodologias de ação convencional são concebidas a partir do viés, incapaz de agir em um ecossistema holístico. O cidadão fica sobrecarregado pela inundação de conhecimentos necessários para agir em seu entorno imediato, e para além disso, ficando cada vez mais longe (no espaço-tempo e conceito) para decidir sobre temas de outras partes da mesma cidade.

Existe um tamanho de informação para manter a coerência cultural?

Existe um tamanho de cidade capaz de se integrar no ecossistema bio-regional?

Em qualquer caso, alcançar um estado coerente é tão delicado e ajustado, que raramente encontramos cidades ou povos, que tiveram sucesso.

Cidades ocidentais, e agora já grandes megalópoles no terceiro mundo, ignoram cada dia mais essa complementaridade regional e se impõem como uma forma totalmente além do resto da natureza, em um mundo não complementar.

Se fizermos os cálculos, e agora já existem estudos sérios sobre isso, o mundo artificial das cidades pós-modernas requer mais ambiente natural, mais superfície e mais energia do que está disponível em todo planeta. Pois o consumo de recursos naturais não renovaveis (ou que não reciclamos) supera amplamente as colheitas cíclicas que gaia produz.

Mas também é a complexidade do mundo cultural que dificulta compreender as causas de seus efeitos. Parece que quase tudo funciona segundo uma espécie de inércia dos velhos planos sobrepostos, assíncronos e vazios de sentido, pois não conseguimos entender como podemos dar continuidade recriando um mundo em que existem inúmeras consequências cujas causas desconhecemos, e quando conseguimos identificá-las, não conseguimos alterá-las.

Neste chamado primeiro mundo, esquecemos que é o primeiro e único: o mundo é o planeta. Este desenvolvimento amorfo e não natural foi causado exclusivamente pela humanidade, tanto em suas relações mentais e internas (sociologia) quanto nas relações físicas e externas (ecologia). Esse esquecimento histórico tem causas diferentes, que podem parecer isoladas, pequenas e desconexas, mas se ampliou à medida que a civilização urbana evoluiu, atingindo níveis quase irracionais com a máxima do controle absoluto da natureza. Isso nos levou a entender os fenômenos separadamente, enquanto os estudos especializados e segregados, segundo o padrão científico moderno, tratam de conceitos que precisamos reunir novamente. Precisamos compreender o mundo – o único mundo – como um corpo global, com sistemas totalmente integrados em operação.

NATUREZA
NATIVO
Espaço Virgem
Eco – Sistema
Comportamento biofísico-eletromagnético-quaqntico
Mapa físico

CULTURA
CULTIVO
Espaço Urbano
Polis – Sistema
Comportamento sociopolítico
Mapa político

Diagrama do estudo

Realidade – o TangívelMapa – o Intangível
Dados
Matéria-Energia
Informação conferida
Problemas
Necessidades
Relações-Meios
Objetivos
Ideologias e
Tendências

A transmissão da
Cultura
Diagnóstico do estado
Atual

Planejamento, Ações e
Progresso e crescimento
Modelos
Alternativos

Novos fluxos,
novas inércias

1 Contabilidade: Dados

É necessário fazer um grande esforço de abstração, – vamos ver se é realmente possível – para tentar comparar os ecossistemas naturais ao sistema artificial da cidade, e talvez, a única metodologia que nos ajude, dado seu grau máximo de abstração, seria a Teoria Geral dos Sistemas (Autor ano).i Se tentarmos colocar a cidade sob a metodologia de análise da T.G.S., podemos definir duas partes: A matéria-energia e as Informações com a seguinte perspectiva:

1.1 Os fluxos matéria-energia que entram, circulam e saem da cidade

– Análise das taxas-. Estamos falando de números, quantidades, economia e o que sai nas fotografias da cidade.

  1. Por um lado, os fluxos de energia-matéria dependem inteiramente da natureza: a partir do capital de reservas naturais, de emissões de energia do Sol, da própria Terra, ou das estrelas. Na verdade, poderíamos começar a contabilizar para cada tipo de recurso e energia uma quantidade, como por exemplo: Gramas/habitante ou Watts-hora/habitante espalhados uniformemente, inventando uma estranha utopia liberal-comuniária, embora seja provado que os valores emocionais que cada cultura dá às suas criações ou necessidades são bastante diferentes e muitas vezes não traduzíveis.
    Já, o mesmo uso da palavra “recurso” é uma dessas armadilhas da linguagem que assimilamos sem objeções ou sem meditação prévia. Josep Puig (ano) expressa muito bem no seu estudo da cidade sustentável, quando se refere ao conceito sagrado que muitas tribos ao redor do mundo têm pelos animais que eles devem caçar, ou das florestas, árvores, cavernas e lagos que têm funções culturais, transcendentais, de identificação ou outras funções, mas, que de forma alguma, são baseados no equilíbrio econômico dos humanos.
    Hoje, nem sequer compreendemos os fluxos de energia-matéria. O cidadão ignora completamente de onde surgem os alimentos ou os materiais de construção e tampouco se preocupa em verificar onde eles vão parar depois, transformados em lixo. Ele só parte do pressuposto que estes recursos lhe pertencem como proprietário e senhor do planeta, negando-os aos demais seres vivos. O caso mais evidente é o dos cursos naturais de água, que estão secando porque são canalizados pelo consumo humano, ou estão poluídos após seu uso. Praticamente todos os recursos já foram privatizados, começando pela terra, água e os solos. Falta apenas privatizar o ar e a profundeza dos grandes oceanos, que ainda assim já sofrem com poluição e espoliação, numa aparente certeza de que ninguém irá protestar.
    A propriedade da terra, e a sua consequente valorização economicista, gera um dos problemas mais graves, talvez o maior, no que se refere à dinâmica cultural. Trata-se de um ponto que deveria ser reorientado nas políticas de direitos ecológicos, que é o fato de que o uso da terra, seus frutos, e até mesmo sua acessibilidade foram privatizados, o que diz muito pouco em favor da humanidade em sua relação com a natureza. O conceito de propriedade de um objeto, geralmente corresponde ao uso que se faz dele, e geralmente usamos a terra para cultivo. Contudo, quando este uso passa a destruir sua capacidade biodinâmica, valorizando-a apenas pelos metros quadrados, ou pior, avaliando-a em termos puramente especulativos, então os valores da cultura perdem completamente o contato com a natureza.

  2. Por outro lado, no interior do sistema artificial das cidades predominam fluxos lineares, isto é, não integrados à contabilidade cíclica e regenerativa. Basta lembrar que os orçamentos dos Estados não consideram as reservas naturais como capital, nem os resíduos depositados em aterros sanitários como sobretaxa. Tampouco contabilizam os efeitos da infertilidade do solo ou as doenças provocadas pela poluição como despesas a serem reembolsadas.

    Neste nível, a linguagem passou por uma quantidade significativa de readaptações. Até recentemente, os fluxos de energia ou matéria que extraímos do meio natural não eram considerados parte integrante da natureza, seja porque fazem parte de um processo que se vê linear, e não cíclico, ou porque circulam em uma intensidade muito diferente do ritmo natural. Era o caso da construção de usinas hidroelétricas ou da queima de combustíveis, vistas como potenciais nunca antes utilizados pelos ecossistemas. Mais tarde, passamos a chama-los de “recursos”, para que pudessem entrar em certas contabilidades, especialmente quando se tornou evidente a sua escassez e, portanto, a especulação em torno de seu valor de uso. Agora, começamos a falar em “espólio”, quando percebemos que não podemos alterar alegremente os ecossistemas, e que pouco adianta tentar torná-los mais compatíveis se, em última instância, seu uso leva à exaustão.

    O mesmo pode ser dito em relação ao lixo, que até pouco tempo era conceitualmente considerado “inerte” (embora, no mundo rural, sempre tenha existido na forma de estrume e usado como fertilizante). Mais tarde, é introduzida a palavra “poluição”, referindo-se a corpos estranhos no meio ambiente. Em seguida, o termo evolui para “contaminante”, trazendo a noção de “perigo”, e depois para “risco”, introduzindo a ideia de “precaução”. Essa mudança refletiu tanto em efeitos fiscais, quanto em impactos estéticos, paisagísticos e de saúde. Exemplos incluem o surgimento do buraco na camada de ozônio, o efeito estufa, o antigo “Smog” em Londres ou ainda a presença de metais pesados nos rios da Europa. Com o tempo, o lixo adotou vários nomes diferentes conforme seu destino ou aproveitamento: “subproduto”, quando reposicionado comercialmente (rebranding); elemento de “reciclagem”, quando reintroduzido no processo de trabalho; ou “resíduo tóxico”, quando exigiu métodos de tratamento de alto custo — seja público, privado, por seguradoras ou serviços de descontaminação. Sobre este tema, é indispensável a leitura de “Nosso Futuro Roubadoii,obra que explica as repercussões a longo prazo da introdução no ambiente de produtos à base de organoclorados.
    Se observarmos bem, essas readaptações da linguagem caminham em paralelo com o conhecimento que temos sobre “dados” ou “relacionamentos” (lembremos da TGS). Quanto mais profundamente compreendemos um elemento ou um sistema, mais cuidadosamente precisamos usar a linguagem — se necessário, inventando novos termos. É nesse ponto que surgem várias questões. O problema está em garantir que a linguagem de reajuste não envolva distorções: seja mudando o significado de palavras que deixam de “interessar”, seja aplicando termos válidos a conceitos diferentes, desvirtuando os originais. Um exemplo notório é o uso da palavra “sustentabilidade”, muitas vezes associada a “desenvolvimento” ou aos já citados “recursos”. Esse processo ocorre hoje em uma velocidade vertiginosa, muito maior que em outros estágios histórico-culturais. E, diferentemente do passado, não nasce das subculturas urbanas, da linguagem da juventude ou da “revolução”, mas do próprio poder. Isso indica que um novo corpo cultural, com outros conceitos e valores de fundo, está em plena gestação.
    Quando o tema é energia, o problema se desdobra em diferentes caminhos. Costuma-se falar em “radiação” como se fosse sinônimo de “poluição energética” — o que é um equívoco, já que radiação é simplesmente o resultado da emissão de qualquer quantidade de energia. Nesse ponto, percebemos que ainda existem setores do movimento ecologista que não alcançaram a necessária mudança conceitual. Seria mais preciso falar em radiação acima da intensidade natural, ou em alguma expressão semelhante. Nenhum termo adequado, porém, foi consolidado, em parte porque o mercado sociocultural silencia diante da importância das sobre-exposições iônicas ou simplesmente eletromagnéticas (CEM), às quais estamos submetidos sem perceber. Diferentes estudos ao redor do mundo confirmam isso — o mais notório deles talvez seja o do Instituto Karolinska, na Suécia (responsável pela concessão do Prêmio Nobel), que investigou a relação entre câncer e CEM. Há ainda pesquisas que associam esses fatores ao estudo da AIDS. A cultura contemporânea, por sua vez, tende a normalizar e até priorizar todo tipo de superexposição: desde pequenos aparelhos, televisores, fornos de micro-ondas e telefones celulares até banhos de UVA, estações de enlace por radiofrequência e antenas de telefonia ou radar.

  3. Os números-chave que fazem todos os outros “dançarem” apontam para um grande problema: nós mesmos, os humanos. Nesta relação entre a natureza e a cultura, o único elemento de contato, presente em ambos os lados, aquele que manipula e executa através de sua estrutura termo-biológica, tanto o natural e genético quanto o cultural e o aprendido, é o ser humano. Entre nossas ações, a mais preocupante é justamente o número em que chegamos, a praga em que nos tornamos neste planeta, ou seja, a densidade de população humana, que em certos pontos atinge condições “infra-humanas”, isto é, condições socialmente inaceitáveis para a cultura ambiental e biologicamente insustentáveis. Além disso, essa super-dimensão que alcançamos, agora é explorada pelo poder como instrumento de manipulação das grandes massas indiferenciadas de “Recursos humanos“. As pessoas entram na contabilidade de energia como mais um item, descartável ou comercializável, de acordo com o sistema nacional de emprego/desemprego que estabelece pautas de negócio e ameaça na relação com trabalhadores desqualificados, desvalorizando qualquer outra característica fora da sua capacidade de trabalho e consumo. Em contrapartida, vemos as características emocionais também sendo transformadas em valores, mercadorias, como vemos nos “reality shows” de TV. Mas continuam desvalorizando valores como solidariedade, compreensão, etc, que, certamente, seriam valorizadas num grupo de trabalho não hierárquico ou na convivência de uma comunidade de bairro.

    Voltando ao problema da superpopulação, devemos prestar atenção ao prefixo “super”, uma vez que existe uma relação entre população e área de terreno. Não é uma relação direta para que passamos resolver com uma fórmula matemática simples do tipo: para tantas pessoas no planeta, tantos alqueires por cabeça. É evidente que a qualidade do solo varia radicalmente de acordo com o ecossistema em que estamos, e que as condições dos fluxos de energia variam de acordo com a biorregião considerada.
    Não podemos nem sequer pensar em fazer uma simples operação de regulação-especulação, do tipo:

    Densidade = moradores / superfície.

    E isso se dá, pela simples razão de que a vida não é um problema estático, linear ou de densidades, como seria o resultado de uma divisão de dois números, pois envolve dinâmica, ação, crescimento biológico, ciclos de energia e, muitas vezes, relações bastante sutis que não aparecem nestas equações simples. Qual é, afinal, a superfície necessária para viver? O que entendemos por necessidades humanas? Vamos nos aproximar destas respostas no próximo capítulo.

  4. Ainda há uma terceira questão importante: a imensa quantidade de elementos que a humanidade faz dançar ao seu redor, tanto materiais, energéticos ou imateriais. Essas quantidades podem ser contabilizadas e muitas vezes são usadas para avaliar o nível de desenvolvimento de um país. O PIB é o exemplo mais claro, mas existem outros indicadores: taxas de escolaridade e analfabetismo, calorias disponíveis por habitante, consumo de alimentos ou de combustíveis (desconheço, até o momento, qualquer sistema de medição do fluxo de unidades de informação que circule em uma região). Em todo caso, estamos falando sobre valores de quantidade de TI incomparavelmente maiores do que aqueles que circulam em um entorno natural e agrícola. Tampouco estou incluindo informações como aquelas emitidas nas rotinas inconscientes da bioquímica dos seres vivos ou dos fluidos da atmosfera. Como é que podemos, nesse egoísmo antropocêntrico surgido do “humanismo”, nos apropriar de todos esses recursos, que também têm direito de uso pelos demais seres vivos? Não haveria a necessidade de pensarmos em uma declaração dos direitos do ecossistema, ou de uma justiça biológica?
    E além desses outros vizinhos da ecosfera… nós realmente controlamos essas grandes quantidades de forma consciente? Temos, de fato, noção do que significam trilhões de dólares, milhões de toneladas de madeira, bilhões de toneladas de CO ², milhões de famílias sem-teto ou milhões de espécies vegetais equatoriais desconhecidas? É verdade que existem técnicos e tecnologia capazes de reunir e interpretar alguns desses dados, mas será que o “Big Data” é capaz de apreendê-los de forma integrada, em um modelo complexo? E mais: pode esse conhecimento ser assimilado pela maioria da população, a ponto de gerar consciência e ser capaz de agir em consequência a partir do princípio “Pensa Global – Atua Local“?

 

1.2 Os elementos de execução-decisão que determinam a dinâmica dos fluxos da cidade.

Análise das ideias – aqui falamos sobre fórmulas, leis, portarias, regulamentos e costumes comportamentais dos agentes da cidade: aqueles que movem a matéria-energia, aqueles que tem a informação e aqueles que produzem o mapa, a programação e, por fim, os programas gerais.

  1. Mas, de onde vem a informação? Como já expus no início, essa diferenciação entre natureza e o mundo cultural, torna-se evidente quando se trata de discutir informação. A informação natural é aquela que extraímos (ou descobrimos, ou percebemos) das leis do eletromagnétismo, da termodinâmica, da genética, das teorias quânticas e relativistas; as que, em última instância, chamamos de leis naturais. Essas teorias são aplicadas, de uma forma ou de outra, conforme a tecnologia disponível no momento e os interesses do poder. Ainda assim, não deixam de ser universais e válidas para todos. As informações naturais também não são criadas nem destruídas, pois são compostas por um pequeno conjunto de fórmulas. Mas sua extrema riqueza -os ecossistemas- e diversidade, especialmente no campo da genética (a biodiversidade), tem gerado respeito suficiente para nos fazer perceber que as combinações geradas podem acontecer apenas por períodos ínfimos, e tão curtos, que talvez nunca as conheçamos se continuarmos a agir de forma negligente com a natureza.

  2. A parte da informação cultural – que nós mesmos temos gerado – incluem também as leis sociopolíticas, e podemos encontrar diferentes teorias e correntes explicativas para sua formulação, quase uma para cada antropólogo famoso. Por outro lado, também podemos criar um corpo inteiro de teoria sociopolítica, uma para cada luta contra alguma distorção em relação ao modelo natural. Ou melhor, tentamos montar um corpo de formulações com informações que preencham o vazio das leis naturais ainda desconhecidas. Mas afinal, conhecemos o grande Planejamento do Universo? Existe mesmo um planejamento do universo? Ou simplesmente o meio é o objetivo? Atualmente, o sistema que organiza o planejamento da humanidade parece depender da sociedade e dos programas políticos, assim como da cidade e do urbanismo. Seria tudo isso uma substituição das leis que regem os ciclos naturais? Ou, na verdade, é a necessidade de ordenar essa “máquina artificial” que chamamos de sociedade artificial, aquilo que funciona dentro da cidade, atualmente quase confundida com uma “Aldeia Global”? Pode ser que esta pergunta só tenha uma resposta no futuro, e que talvez seja apenas uma questão de maturidade. Mas talvez pode não ser, pois deve ser levado em conta que ela está ligada a essa estranha dicotomia espécie-social / espécie-egoísta. É possível que não precisemos da tal artificialidade. Percebam que tudo depende dos valores que regem essas leis sociopolíticas. Talvez, quando esses valores se adequarem às formas de ciclos e energias naturais, poderemos perceber que as leis já estavam feitas desde o início.

  3. Ao longo do tempo, as informações que orientam a humanidade passaram de uma relação íntima com o meio ambiente – desde os caçadores-coletores – através de uma simbiose mais ou menos equilibrada entre as informações naturais e as informações culturais exigidas nas sociedades agrícolas, das quais, ainda hoje, encontramos exemplos em todas as regiões do Planeta. Porém, com a chegada das sociedades industriais a porcentagem de informações recebidas sobre os produtos tornou-se essencialmente cultural, causando um desequilíbrio neste balanço, onde hoje em dia, um cidadão médio norte-ocidental recebe em seu cotidiano 95% de informações “culturais” e apenas 5% de informações naturais, normalmente relacionadas à climatologia. E apenas 50% ou 60% desta informação que chega até nós diariamente, são de fato úteis ou aplicáveis em nosso dia a dia. (o restante acaba sendo propaganda ou fake-newsiv) Então, como poderíamos estabelecer critérios para expor e disseminar apenas informações úteis?

    1. A parte da informação cultural que, em princípio, está presente em nosso ambiente mas que não temos interesse em utilizar, é considerada a poluição da informação. Se introduzirmos todo este ruído de informação que encontramos na cidade – que na verdade penetra em nosso inconsciente – dentro do mecanismo mnemônico que usamos para pensar, meditar e aprender, acabaríamos esquizóides, considerando que trata-se de uma sobrecarga de estímulos, já que a propaganda é a informação que não buscamos ou que não temos real interesse.

    2. A poluição física é redirecionável ou disfarsável com a utilização de filtros nas chaminés, estações de tratamento de esgoto, ou até mesmo com sistemas de produção limpa, que já estão sendo operados. A informação, porém, dificilmente é peneirável. Os índices de uso e abuso da internet são exemplos claros, onde apesar da haver uma expectativa de acesso ao conhecimento, a realidade oferece apenas 10% ou 20% de conteúdo realmente útil ao internauta. É claro que não faz sentido pensar em retornar à censura. Como em tantos outros casos, apenas a mudança no foco da “quantidade” pelo da “qualidade” poderia ser suficiente, mas a dinâmica econômica do crescimento produtivo impede essa transformação.

  4. A quantidade de informação acumulada pela humanidade ao longo de oito mil anos de história, modificando o meio ambiente e a própria história cultural, é muito grande para que uma única pessoa possa retê-la em sua mente – como se fosse sua capacidade de disco rígido. Na era moderna, a Enciclopédia da Ilustração, a revolução científico-técnica do racionalismo e o avanço da social-democracia geraram os “especialistas”. A visão de um mundo compreendido apenas em partes, por certos elementos capacitados, os “técnicos/cientistas”, nos levou a um superconhecimento desintegrado: “sabemos muito mais sobre menos coisas“. Ao meu ver, essa especialização nos afasta cada vez mais da capacidade de gerir sistemas complexos.

  5. Agora, no final dos primeiros oito mil anos de história humana culta, começamos a dispor de artefatos capazes de captar, em um curto espaço de tempo – humanamente um ou dois anos – numerosos dados de todas as partes do planeta e sobre todas as temáticas imagináveis, processando-os de forma relativamente fácil, ainda que com um nível de complexidade de fatores relativamente baixo. Isso nos permitiu fazer um balanço, ter uma ideia de até que ponto os danos causados por nossos erros passados persistem e refletir sobre o mal que continuam a causar às gerações futuras.


2 Problemática

Hoje em dia, o conhecimento sobre o planeta está se tornando cada vez mais acessível. Já temos ele todo fotografado, mapeado, registrado e disponível em rede.

2.1 As Necessidades

Há muita literatura escrita em decorrência das lutas sociais e comunitárias dos últimos dois séculos – desde os documentos das Nações Unidas e os textos de figuras indispensáveis, como lutadores revolucionários ou prêmios Nobel, até as publicações de pequenas associações de bairro espalhadas por todo o planeta. Contudo, tudo isso se mantém sob conceitos essencialmente culturais e políticos, e, em um certo sentido, emotivos.

  1. Encontramos notícias conflitantes, às vezes vindas das mesmas fontes. Isso ocorre porque não estão claras as “necessidades humanas”. Temos clareza apenas das necessidades naturais, biologicamente semelhantes às de outros mamíferos. Já as necessidades culturais são induzidas pela própria cultura, incluindo a economia e a política. Atualmente, essas duas dimensões de informação não são claramente distinguidas.
    As pessoas adoecem por razões culturais: a silhueta, o estresse, a obesidade, a ansiedade. Então a cobertura das necessidades naturais criou necessidades culturais que, por sua vez, modificam as biológicas. É aceitável essa dinâmica? O coletivo age da mesma forma ao permitir a geração de gases de efeito estufa, a cloração da água, e tantas outras distorções que passam a ser naturalizadas?

    Os dados indicam que, atualmente, não há recursos suficientes para um desenvolvimento crescente e ilimitado. No entanto, outros programas afirmam que é possível erradicar a fome e escolarizar todas as crianças em menos de 20 anos. Esses dois cenários são compatíveis com os dados? Pessoalmente, sou bastante otimista e posso acreditar neles, mas apenas se a dinâmica atual dos fluxos de energia for invertida e redirecionada, não para fins especulativos, mas para construir a cidade de modo que promova a equidade de oportunidades.

  2. Por outro lado, não seria muito mais fácil atender a essas necessidades se fossem claramente definidas as diferenças entre o biológico e o cultural? Embora isso comporte, como já foi dito, o desamarre de uma série de convenções sociais e históricas. Muitos preconceitos, que a sociedade pós-moderna ainda enfrenta, vêm sendo superados por meio de propostas “artísticas” completamente banais e do tipo “tudo-vale”, terminando novamente com a figura do gênio criativo. Trata-se de um processo de des-culturização, que ocorre paralelamente à liberação dos padrões sociais dessa cultura. Talvez seja a base para uma nova cultura, radicalmente diferente da cultura restritiva descrita por S. Freud: uma cultura liberada porque não precisa crescer, que perde os parâmetros autoimpostos desde os primeiros assentamentos sedentários das tribos agricultoras, onde o bem da comunidade, a manutenção do cultivo e a gestão dos recursos e excedentes definiram diretrizes políticas para as relações sociais.

    Isso nos leva a refletir sobre o fato de que somos, de fato, a única espécie no planeta que reconhece que não há necessidade de crescer além da densidade atual – e ainda assim observamos isso de forma consciente, mas impotente. Entendo que qualquer espécie animal, ao descobrir um entorno extremamente favorável, tende a expandir-se ao máximo. A diferença é que nós somos capazes de criar esse ambiente super favorável: as cidades.

  3. Agora, pela primeira vez, começamos a quantificar as necessidades em termos de energia-espaço, comprovando o impacto – o custo – de um ser humano inserido em um ciclo de produção e deposição de energia e matéria naturais. Além disso, esse cálculo pode ser feito demonstrando a relação com a área do planeta que tal dispersão de energia e resíduos implica.

    Este é o conceito de pegada ecológica: o espaço utilizado por um determinado ser ou grupo humano para suprir suas necessidades de consumo e devolver ao meio ambiente os resíduos resultantes das suas atividades. Trata-se do espaço necessário para gerar a energia que consumimos – em todas as suas formas – e da superfície necessária para absorver os ciclos de regeneração natural de todo nosso lixo.
    Esse espaço, que precisa do mundo cultural para ser “integrado” ao mundo natural, é imenso. E, além disso, não se distribui de forma regular — nem entre as diferentes culturas do planeta, nem dentro de uma mesma cidade. Há contrastes profundos entre o mundo capitalista, o mundo comunista, o terceiro mundo e, dentro deles, entre os milenaristas, os guetos e as favelas do quarto mundo. Também entre os distintos ecossistemas, que organizam seus ciclos de matéria e energia com intensidades e ritmos próprios, determinados por fatores locais como clima, solo, topografia, entre outros.
    O tamanho relativo desses dois sistemas — cultura e natureza — está se tornando cada dia mais incompatível. Talvez isso já ocorra há muito tempo, mas só agora começamos a percebê-lo com clareza. O sistema cultural está atingindo dimensões comparáveis às do sistema natural, embora continue, na realidade, completamente dependente dele. Como o sistema natural necessita de seu próprio espaço para retroalimentar-se, estamos criando uma dinâmica potencialmente letal.

    Agora que começamos a quantificar as diferenças energéticas, percebemos a importância essencial do problema da gestão da energia no planeta. Os primeiros estudos desse tipo apontam, por exemplo, que a Holanda possui uma pegada ecológica de aproximadamente 82 mil km², ou seja, 2,4 vezes a área oficial do país, de 34 mil km². Evidentemente, os demais países da União Europeia apresentam proporções semelhantes, o que significa que esse excedente não pode estar localizado dentro da própria Europa. Onde, então, a Holanda ocupa esse território adicional? Em grande parte, ele se encontra no Terceiro Mundo — por exemplo, na forma de plantações destinadas à produção de forragem para o gado. Outro estudo sugere que cada cidadão canadense ocupa o equivalente a 4,5 hectares de área produtiva. Se todas as pessoas do planeta utilizassem os ciclos de matéria, energia e resíduos na mesma intensidade que um canadense, não haveria terra fértil suficiente no planeta para sustentar toda a população humana nesse nível de consumo. Então, como é que ainda estamos vivos? Primeiro, porque em muitos países do Terceiro Mundo milhões morrem, deixando seu “lugar” livre no ciclo de consumo global. Segundo, porque exploramos recursos fósseis, formados há milhões de anos, consumindo hoje a energia acumulada de eras geológicas inteiras. E terceiro, porque a má prática agrícola — baseada na exploração intensiva e no esgotamento dos solos — degradou vastas áreas de terra fértil, que se transformaram em regiões áridas e desertificadas. Essa perda contínua de solo aumenta a desproporção entre habitantes e superfície fértil, e essa relação tende a permanecer desfavorável, mesmo que a população venha a se estabilizar. Esse processo já ocorreu em várias partes do planeta: o exemplo do guano no Chile e no Peru, ou a extinção de zonas de pesca por sobre-exploração, são apenas alguns casos. Até muito recentemente, não percebíamos que essa situação havia se tornado global, visível no avanço dos desertos, na perda de florestas e na escassez de água doce limpa. Mas é preciso enfatizar este ponto: “até agora não percebíamos” — pelo menos, não de forma socialmente assumida. É evidente que, desde o início da Revolução Industrial, vozes de alerta já se levantavam sobre esses problemas. Esse reconhecimento tardio traz consigo uma espécie de consciência de culpa coletiva, um reconhecimento de que os grandes desequilíbrios ecológicos e sociais são criações humanas. Da mesma forma que, em outros tempos, as lutas pelos direitos sociais se insurgiram contra leis injustas criadas por humanos, hoje enfrentamos a necessidade de uma mudança profunda de mentalidade e, consequentemente, de todo o sistema de gestão social que molda nossa civilização.


2.2 Relações

  1. As questões profundas que enfrentamos hoje — como o crescimento populacional e a gestão da terra — suscitam dúvidas fundamentais: seriam elas induzidas por um egoísmo de origem genética, ou resultantes do sistema educativo e dos modelos culturais que construímos? São traços próprios de determinadas culturas ou da espécie humana em sua totalidade? Diante disso, como podemos enfrentar o conflito entre o uso individual da terra — o princípio de que “a terra pertence àqueles que a trabalham” — e o direito coletivo à preservação da biodiversidade e à convivência equilibrada das comunidades humanas? Como conciliar o direito pessoal de uso com a responsabilidade comum de garantir a continuidade da vida, tanto para os cidadãos quanto para o conjunto da espécie?

  2. O modelo predominante que explica as relações do sistema e sua classificação social de produção pode ser descrito da seguinte forma: o setor primário abrange a agricultura extensiva, a mineração e a pesca — atividades que extraem recursos finitos da terra para a venda e o “uso e desfrute” humano; o setor secundário compreende a indústria circular e a agricultura regenerativa — responsáveis por transformar e “civilizar” produtos naturais; o setor terciário engloba os serviços, isto é, aqueles que reproduzem produtos culturais em outros produtos culturais; e, por fim, o setor quaternário corresponde aos geradores de compostos a partir dos rejeitos humanos, devolvendo-os ao meio natural.


    Vendo esse esquema, podemos visualizar alguns dos parâmetros pelos quais estamos gerando cultura. Essa classificação, na realidade, é muito mais complexa: encontramos inúmeras variantes. Por exemplo, a siderurgia não se desenvolve da mesma forma que o setor de fabricação de computadores. Entre os espaços secundário e terciário existem diversos graus de complexidade — não é o mesmo oferecer serviços através da Internet global do que atuar como um mecânico de automóveis na vizinhança. Podemos, portanto, começar a perceber que as categorias se estabelecem segundo o grau de reelaboração cultural, algo semelhante a diferentes níveis de profundidade fractal, em que, por exemplo, a indústria mais dependente do setor primário e de monoprodutos está mais exposta à depressão, enquanto a mais bem-sucedida é aquela capaz de reciclar culturalmente seus próprios produtos.

    Mas poderíamos definir outros esquemas, ainda mais semelhantes às cadeias tróficas. Por exemplo, poderíamos dividir a sociedade entre aqueles que produzem — indústria, agricultura, mineração —, aqueles que consomem ou utilizam os produtos — os cidadãos — e aqueles que retiram o lixo das cidades, geralmente a administração pública, embora esta raramente assuma a responsabilidade de fechar os ciclos da matéria.

    > > > Empresas >
    > Consumidores >
    > Administração > > >


    Nesse esquema, podemos ver com mais clareza o nosso papel dentro do conjunto — como consumidores e seres individuais — e também a nossa potência relativa dentro dele, que é pequena, já que nossas escolhas individuais pouco interferem no controle do início ou do fim do processo. Trata-se de uma verdadeira ignorância coletiva quanto às realidades que marcam os extremos dessa linha: a espoliação da Natureza e o despejo de lixo de volta nela.
    Neste diagrama, também podemos observar a existência de múltiplos sujeitos plurais: podemos ser, ao mesmo tempo, trabalhadores e consumidores, ou atuar na gestão administrativa enquanto também consumimos, entre outras sobreposições. Isso nos leva a refletir sobre as atuações contraditórias — até mesmo hipócritas — em que estamos inseridos na globalização do trabalho e na localização do nosso viver cotidiano.

  3. Outro modelo aparece nos sistemas humanos mais comuns: os sistemas de classes.


    A classe alta: com cerca de 95% de potência, detém aproximadamente 70% das transações econômicas… Omnipotens?
    A classe média: possui o poder aquisitivo que define o bem-estar — com as necessidades básicas cobertas, um trabalho diário regular — e permanece em um estado intermediário, sem ousar protestar por medo de perder o que conquistou.
    A classe pobre: resultado da espoliação das duas anteriores, concentra-se em cerca de 60% no Terceiro Mundo (ainda que cresça geometricamente nos países ricos) e dispõe de menos de 5% da capacidade econômica global. É a classe que, por nada ter a perder, pode arriscar tudo.


    Trata-se, mais uma vez, de estatísticas e da classificação do dinheiro, mas elas refletem a crescente falta de justiça que se instala no sistema global. A classe alta torna-se cada vez mais poderosa, enquanto a classe baixa afunda ainda mais. Não há paralelo algum com os sistemas de organização natural, pois, nesses, as trocas nunca se baseiam em elementos físicos, mas nas relações das cadeias tróficas — ou, mais precisamente, em mecanismos que garantem a circulação da energia.
    Na cultura, porém, num malabarismo curioso, refinamos tanto esses mecanismos que passamos a valorizar a energia de modo extremamente sutil, chegando a atribuir valor à própria peça de troca: o dinheiro, tratado como se fosse um elemento sólido em vez de uma representação de energia. Com o dinheiro, é possível adiar o uso da energia no tempo, criando expectativas de ação futura, assim como o sol da primavera desperta as sementes adormecidas. Esse mecanismo de potência e de liberdade individual atribuiu ao dinheiro um valor simbólico tão alto que passamos a direcionar nossa energia para obtê-lo, em vez de utilizá-la para gerar mais energia.
    Assim, em lugar de um sistema de trocas baseado em valores físicos e mensuráveis — como quilowatts-hora, ou mesmo tempo — desenvolvemos sistemas de relação sustentados no desejo e no valor subjetivo do dinheiro. Um recurso, aliás, totalmente controlável em sua fabricação e circulação, o que jamais seria possível com a energia natural ou o tempo.
    Ignoro até que ponto é possível formular outro sistema de relações capaz de valorizar o trabalho, as ajudas mútuas entre os cidadãos ou mesmo um objeto manufaturado. Embora já existam, em diversas partes do mundo, múltiplas experiências com moedas locais, ainda é incerto se essas iniciativas são suficientes para alterar a lógica dominante. Também não sabemos até que ponto o conceito crematístico da economia pode ser modificado — como propõe J. Martínez-Alier em sua “Economia Ecológica” —, de modo a redirecionar o valor de forma justa e equitativa.

    De qualquer forma, é evidente que existe um componente socioemocional por trás do valor cultural atribuído ao dinheiro. É sintomático, nesse sentido, o famoso ditado: “Dinheiro não traz felicidade.” Então, será que as pessoas já não aspiram mais à felicidade? Teria o valor da felicidade desaparecido dos lugares proeminentes da cultura? Ou, talvez, a felicidade que a cultura atual nos vende não seja a felicidade que realmente desejamos?
    Conceitos de bem-estar ou de padrão de vida que emulam a ideia de felicidade, mas a vinculam diretamente ao dinheiro, constituem talvez a maior armadilha a que estamos sujeitos por meio da linguagem. Não descubro nada de novo ao afirmar isso — mas continuamos a nos recusar a analisar esses aspectos simultaneamente autolimitadores, transcendentes e críticos, que residem nos pontos mais fortes (e cegos) da nossa cultura ocidental. Quando alguém se apresenta como defensor da solidariedade, da melhoria dos direitos humanos e do bem-estar de todos os seres do planeta, mas ao mesmo tempo afirma que isso nada tem a ver com a autodisciplina diante do próprio padrão de vida… como podemos, então, encaixar essa postura em coerência com os valores que circulam em nossa contraditória cultura? Será que também luta para exportar o estresse — fugindo nos fins de semana da cidade — ou para sustentar a estética caótica das urbes erguidas sob a lógica da hipoteca e da especulação imobiliária? O que tudo isso tem a ver com a compreensão da luta pelo controle da natureza e, ao mesmo tempo, pela liberdade e pelos direitos humanos? Como podemos criar valores naturculturais se as linguagens a que estamos habituados se afastam cada vez mais dos conceitos de natureza, espiritualidade e transcendência?
    Temos vergonha de usar palavras tão simples como felicidade, e preferimos falar em padrão de vida. Reutilizamos a palavra amor — distorcida — para empregá-la como sinônimo de prazer sexual, no ato de “fazer amor”. Ou ainda atribuimos a outros termos significados cada vez mais materiais e menos imaginativos: identificamos liberdade com democracia, com o celular, com o carro, ou com o dinheiro de plástico.
  4. Poderíamos finalmente falar de outro modelo que permaneceu em vigor ao longo da história da humanidade, quase como um mecanismo biológico: a família. Esse modelo, entretanto, atravessa hoje transformações profundas — e possivelmente irreversíveis — dentro da tendência do sistema social contemporâneo. O grupo mínimo autossuficiente na história humana é o que entendemos como família tradicional, em que as gerações se sucedem regularmente, transmitindo valores, poder e posses. Esse núcleo familiar é sustentado pelo próprio funcionamento biológico da espécie, conforme os padrões evolutivos dos mamíferos. No entanto, não podemos confundir a conquista cultural da comunidade com o funcionamento da família.
    As tradições parentais das tribos esquimós, assim como as das famílias de artesãos medievais, organizavam-se em torno de indivíduos reunidos para formar aprendizes em ofícios específicos. Nesses casos, os vínculos de consanguinidade não eram essenciais — seriam, então, famílias culturais?
    Somente no acúmulo de poder praticado pelas famílias nobres europeias — posteriormente reproduzido nas alianças das poderosas famílias burguesas — é que os laços familiares se tornaram estritamente biológico-culturais.
    É evidente que a família funciona como a célula básica de transmissão biológica e de patrimônio cultural de uma sociedade. No entanto, à medida que essa sociedade passa a organizar sistemas mais complexos de formação e difusão de conhecimento — assumindo para si o papel de educar, treinar e perpetuar valores —, a família torna-se gradualmente dispensável nesse processo. O fenômeno mais curioso é que, no mundo ocidental, a população diminui, as famílias se reduzem, mas o espaço físico ocupado por essa mesma população aumenta. O indivíduo contemporâneo desenvolve-se de modo isolado dentro da sociedade, embora mantenha múltiplos vínculos de amizade e pertença a inúmeros espaços de convivência. Constata-se, portanto, de forma concreta — espacial —, o crescimento da distância entre dois polos opostos: a redução do núcleo individual e a ampliação do espaço necessário para que esse mesmo indivíduo se realize plenamente dentro da cidade.

    Neste momento, o espaço necessário para o desenvolvimento individual sobrepõe-se cada vez mais ao de outros indivíduos. Dessa sobreposição surge, de forma quase natural, a formação de associações e agrupamentos cotidianos, criados entre pessoas que compartilham afinidades culturais e não necessariamente vínculos familiares. Assim, consolida-se uma nova célula social, estruturada em torno de conceitos essencialmente culturais, que acaba por relegar a segundo plano as funções tradicionais de crescimento e reprodução biológica. Em certo sentido, esse grupo reduzido assume — e ao mesmo tempo redefine — o antigo conceito de família.
  5. As linhas de trabalho que buscam compreender todas as relações de um ecossistema podem ser amplas e diversas: vão desde estudos de cruzamento de bancos de dados com sistemas de informação geográfica (SIG) em bases bidimensionais, passando por compilações estatísticas ou fotográficas dos diferentes agentes e de seus efeitos sobre o território, até diagramas completos das cadeias tróficas bioregionais — entre muitas outras abordagens. Mas como seriam esses estudos aplicados à cidade? Os exemplos mais completos talvez sejam os trabalhos de planejamento urbano, expressos nos Planos Diretores. No entanto, o planejamento urbano é, em essência, a materialização física de uma proposta política. E o urbanismo, afinal, reduz-se apenas a isso? Mesmo com o Plano Diretor, ainda não dispomos de informações suficientemente amplas ou precisas sobre o verdadeiro estado da cidade.


3 Ideologias e tendências

Na corrente cultural contemporânea encontramos até mesmo visões opostas sobre a própria evolução humana. As prospecções nos apresentam diferentes cenários de futuros possíveis — alguns mais críticos, outros mais redentores, outros ainda de caráter marcadamente futurista. Pessoalmente, proponho uma síntese em dois grandes grupos, que, para fins de classificação, identifico como: posição “Pós-moderna” e posição “Nova Era”.

Mas nenhuma dessas tendências se mostra claramente ambientalista. As teses ecológicas, embora numerosas e cada vez mais difundidas, ainda não conseguem articular-se de modo a constituir um verdadeiro “corpo de estado da arte” — um núcleo de criatividade cultural autônoma e coeso, capaz de neutralizar a arrogante indústria ocidental do lazer. O que existe, em vez disso, é uma constelação de alternativas dispersas, inseridas de maneira fragmentária no vasto corpo virtual da cultura político-técnica global. Por que não há, então, essa capacidade de globalidade cultural, entendendo-se a cultura como expressão artística? Seria possível que a criatividade ambientalista, por sua própria natureza, não encontre um elo internacional sólido, sobrevivendo apenas sob formas regionais e localizadas?

3.1 A posição pós-moderna é aquela que atualmente conduz o processo de globalização do mundo. Como analisa com precisão Fredric Jameson em Pós-modernismo⁶, essa globalização se realiza, antes de tudo, em nível comercial, mas vem acompanhada da difusão de uma cultura internacional padronizada — um fenômeno que tem suas raízes nas antigas colonizações transnacionais e que hoje se manifesta sob novas formas simbólicas, sustentadas por ícones como a Coca-Cola, o rock’n’roll e o cinema hollywoodiano norte-americano.

Por outro lado, essa mesma cultura pós-moderna também acolhe e até celebra a multiculturalidade — expressa, por exemplo, na intensificação dos voos transcontinentais e na circulação global de pessoas e ideias. É uma cultura que se apropria de elementos de tradições indígenas, que incorpora discursos de solidariedade e busca um reequilíbrio simbólico entre norte e sul, promovendo práticas como o comércio justo e solidário e fomentando o surgimento de grandes organizações não governamentais dedicadas à solidariedade e à preservação ecológica. Contudo, simultaneamente, essa mesma lógica impõe o comércio imperialista das grandes multinacionais, perpetua a espoliação das riquezas naturais dos países do chamado terceiro mundo, contribui para a aniquilação de tribos e culturas consideradas “inúteis” aos interesses corporativos — tudo isso com a conivência de governos locais e a ineficácia quase crônica das instituições internacionais, como a própria ONU.

Na verdade, é o mainstream que é amplificado e reproduzido pela grande mídia. A própria estrutura organizacional da Internet integra-se exemplarmente a essa visão de mundo. Trata-se, em certa medida, da expressão contemporânea de um ideal moderno e tecnocrático, forjado a partir do planejamento socialista — o projeto de um governo racional que orientaria o progresso “equilibrado” da humanidade. Paradoxalmente, esse mesmo esquema de Programa para o Progresso foi posteriormente apropriado pelo capitalismo, que o aplicou de maneira muito mais eficiente, mas voltada a seus próprios fins. Assim, o ideal de progresso, em vez de promover unificação e equilíbrio, se fragmentou em milhões de formas “livres”, dissolvidas no “tudo-vale” caótico do liberalismo. Nesse cenário, já não é possível transmitir um objetivo comum ou programático ao indivíduo, que se vê “livre” apenas para escolher — livremente enganado — aquilo que mais o seduz: a propaganda.


Dentro da proposta pós-moderna, a posição do indivíduo torna-se, portanto, essencialmente conflitante. De um lado, ele é conduzido pela direção imposta pelo sistema programado de globalização — representado por instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o G7 —; de outro, é lançado na aparente liberdade democrática que o isola, reforçando uma sensação de autossuficiência social, independentemente de seu status de classe.

É esse mesmo progresso — que jamais considerou a importância da natureza enquanto espaço ecossistêmico, fonte de ar puro, água limpa, solos férteis e essências medicinais, do qual a humanidade é parte indissociável — que se sustentou unicamente na competição entre blocos políticos pelo crescimento ilimitado. Nessa lógica, os sistemas socialistas diferiam dos capitalistas apenas pela suposta atenção à responsabilidade social e à busca de igualdade.

Hoje, muitas das antigas reivindicações sociais foram assimiladas pelo sistema capitalista, em diferentes graus, conforme o nível de “bem-estar” de cada país — e, evidentemente, mediadas de modo a conter seu potencial de empoderamento. No entanto, novas reivindicações surgem progressivamente, sobretudo no campo ambiental, e, com a experiência acumulada e a dinâmica já em curso, o próprio sistema econômico passa a repensar suas estratégias de reação, incorporando as questões ecológicas para redirecioná-las em benefício próprio. Um exemplo notável é o artigo de Mike Davis, Ecology of Fear (Como o Éden perdeu seu Jardim)⁷, sobre a devastação da Califórnia, que ilustra como o capitalismo realiza um rápido ajuste ao novo paradigma conceitual, transformando-o em mais um elemento de consumo — e, assim, continua a ocultar o papel da cidade como estrutura de controle organizacional.

Essa cultura pós-moderna reforça as tendências atuais, pois exige a máxima produção — a qualquer custo — e o crescimento incessante do chamado “bem-estar humano”: hoje traduzido no direito universal ao laptop e ao celular (antes, ao computador e ao telefone). Dentro dessa concepção cultural, incorpora-se pontualmente alguma preocupação ecológica, mas sempre subordinada ao homem. A natureza é colocada a seu serviço, e a própria linguagem é manipulada para redefinir a “floresta” como “valor paisagístico”, o “mar” como “terapeuta natural contra depressões” e os “ecossistemas” como meros “prestadores de serviços”.

O que costumamos definir como a era do “setor de serviços” é, na verdade, a era da reelaboração cultural dos próprios “produtos culturais” — a era da cópia, da reprodução visual, da expressão virtual dos objetos, em vez dos objetos em si.

Na verdade, uma das características mais marcantes dessas transformações está precisamente na linguagem — no léxico, na gramática, na sintaxe. A introdução de novas formas tecnológicas e informáticas de comunicação, a incorporação de diferentes línguas internacionais na vida familiar, a formação de linguagens subculturais intergeracionais e intermodais, e a sobreposição crescente de linguagens visuais, simbólicas e gestuais exigem uma organização mental que ultrapassa a capacidade de coerência individual. Por definição, isso nos conduz à “esquizofrenia”, que, como afirma Fredric Jameson em Postmodernism, or the Cultural Logic of Late Capitalism, alcançou hoje um nível coletivo e, portanto, se estabelece como uma das características culturais, sem atribuir o devido valor ao estado individual do cidadão.

Como já mencionado, os valores ideais que impulsionam o espaço artificial da cidade são, na verdade, os mesmos valores da comunidade humana que a habita — a cidade nada mais é do que a forma espacial que esses valores assumem. Nela, buscamos nos libertar dos rigores climáticos da natureza, intensificar as relações humanas e reforçar o círculo da criatividade, ao mesmo tempo em que organizamos o trabalho e suprimos necessidades de modo delegado ou comunitário, reservando algum tempo para experimentar tudo o que os sentidos e o prazer permitem. No entanto, todas essas abordagens acabam relegadas a um plano secundário (e muitas vezes são consideradas utópicas) dentro da dinâmica de continuidade do sistema pós-moderno. Por isso, surgem constantemente propostas alternativas que nada mais fazem do que tentar recentrar a vida nesses objetivos vitais.

Analisando a forma da cidade e o estado da cultura comum, podemos identificar os valores que esse espaço transmite. É nesse ponto que nos tornamos conscientes do sistema de valores que governa nossa sociedade: o bem-estar, representado pelo poder legislativo e pela administração pública; o dinheiro, encarnado nas grandes empresas e corporações; e a inconsciência, expressa na própria população — todos vistos como meios de alcançar uma vida considerada “boa”.


À medida que a tecnologia avança, a necessidade da cidade como espaço indispensável para alcançar o bem-estar diminui — a conexão em rede, especialmente pela Internet, permite ao indivíduo realizar muitas das funções sociais, econômicas e criativas sem depender da vida urbana. No entanto, essa aparente superação da cidade não é inédita: ao longo da história, encontramos outras formas de organização igualmente completas e satisfatórias.
Culturas transumantes, comunidades rurais cooperativas, bairros autossuficientes nas cidades do Terceiro Mundo, ou mesmo cabanas isoladas nos trópicos, demonstram que há múltiplas maneiras de viver plenamente no presente. Assim como os povos caçadores-coletores, essas formas de vida mostram que o sentido de completude humana não depende da estrutura urbana nem do progresso tecnológico.

3.2 A opção chamada, digamos, “Nova Era”, propõe uma rota utópica, funcionando como força renovadora e dialética em contraposição ao estado dominante. Nessa visão, o mundo ideal é aquele em que natureza e urbanidade coexistem em harmonia, buscando restabelecer o equilíbrio perdido entre ambos. A cidade, portanto, não é entendida como oposição à natureza, mas como parte integrante do ecossistema regional, um organismo que deve funcionar de modo complementar, e não predatório. Dentro dessa perspectiva — que poderíamos também reconhecer como “neo-rural” — as cidades deixam de ser vistas como o ápice da civilização e passam a ser um componente entre outros da paisagem viva, um espaço alternativo, transitório, necessariamente vinculado à saúde ecológica do seu entorno.

Um espaço com uma cultura muito mais ligada à história local e regionalista, uma posição que envolve, por sua vez, um menor “estresse” sociocultural, restringindo as interações diante da avalanche de informações da mídia, mas às vezes com maior “rigidez moral” ou apego a valores de conservação naturalistas, até mesmo sectários, em oposição à prepotência do sistema globalista pós-moderno. Posições que, muitas vezes, são geradas em reação às dificuldades legais, aos costumes, ao consumo e à obediência civil que regem os valores convencionais.

Como uma alternativa diversificada e livre, ainda há muito caminho a percorrer e muitas questões a serem resolvidas — questões que, como sempre, o sistema tenta impedir que se questionem, e que, se houver resposta, não possam ser comprovadas de forma exemplar. Esta proposta alternativa, tanto no modelo utópico da cidade física quanto na organização coletiva, é constante ao longo da história da humanidade:


− As cidades livres da Idade Média da Europa feudal.

− As comunidades cristãs como o Cisterix ou as Missões Jesuitasx sul-americanas.
− O nascimento marginal de Amsterdã ou Veneza.
− As cidades ideais do Renascimento Italiano.xi
− A comunidade artística de Darmstadt 1900,xii colonia g de artistas germinadora do Jugendstil em Alemanha.
− A Cidade Jardim do amanhã. de Ebenezer Howardxiii
− Os falansterios de Furierxiv
− Os Amish e os Witmarsum

− A cidade radiante, de Le Corbusierxv
− Taliesin 1933, Taliesin Westxvi 1937, ou Broadacre Cityxvii 1935, por Frank Ll. Wright.
− Os Kibbutzxviii
− Global ecovillage networkxix. Findhornxx, − Aurovillexxi, − Christianiaxxii

– Arcosantixxiii
− As múltiplas comunas hippies dos anos ‘60xxiv
− O C.A.T.xxv em Machinlly – Gales
− Os skuattersxxvi e ocupadores…


Salientando que as cidades renascentistas italianas, como as propostas por Leonardo da Vinci, foram as primeiras cidades planejadas, as primeiras a imprimirem a invenção artificial, distinta da orgânica-histórica. Imediatamente, as primeiras tentativas de construção foram interrompidas por diversos agentes interessados, cada um com suas contribuições culturais, fossem elas limitantes ou enriquecedoras. Os humanistas perceberam, automaticamente, que a dinâmica real passava pela dialética:

A cidade faz o cidadão – O cidadão faz a cidade

De todas elas, as que foram realizadas e continuam funcionando são precisamente aquelas planejadas autonomamente pelos próprios habitantes, nas quais a comunidade construiu sua autonomia em relação a qualquer organismo superior.

Percebemos que essas cidades emergiram tanto de áreas oficiais ou de prestígio intelectual reconhecido, como as propostas modernas de Le Corbusier e Frank Lloyd Wright, quanto de posições totalmente marginais, fora dos círculos da elite, como no caso de Christiania ou Findhorn. Porém, aquelas cidades que afundaram ou tiveram sua concepção teórica radicalmente alterada foram aquelas que o poder adotou para seus próprios propósitos: a comunidade cristã com a adoção de Roma, a cidade ideal do Renascimento italiano, a cidade-jardim na Inglaterra vitoriana, o Falangsterios na França revolucionária e a cidade moderna de Le Corbusier na cultura internacional ocidental.


Há também propostas e modelos alternativos que falham, por várias razões: podem ter sido projetados sob medida para oligarcas intelectuais, distantes da cidadania, ou, ao contrário, propostas surgidas da própria comunidade que se tornam inviáveis no momento em que representam uma ameaça à alternância política, como foi o caso dos hippies dos anos 1960 na Califórnia.


Paralelamente, os agentes criativos, os artistas, estão cada vez mais se refugiando nas áreas rurais, longe da poluição cultural da cidade, e ao mesmo tempo focando na criação regional autônoma, que busca reunir o espaço cultural e o espaço natural em um lugar comum com identidade. Nestes casos, os grupos, em geral, são bastante duráveis em comparação aos ‘revolucionários’ dos anos 1960, fiéis e consistentes com o espírito e a missão que os criou.

Se esse espírito é importante, será essa a base para que permaneçam fiéis? Porque eles não se adaptaram ao poder, ou porque o número de indivíduos envolvidos permaneceu reduzido? Ou porque estão alcançando um ‘espaço total’, como define Christopher Alexander na Estrutura do meio ambiente: um espaço harmônico onde as linguagens culturais e naturais são compatíveis.


No resto das cidades do mundo, encontramos um estado que tende ao limite nas inter-relações naturais (recursos-energia), que se aproximam do esgotamento, e culturais (globalização militar-econômica), que tendem ao estresse de todo o planeta ao mesmo tempo. Nessas duas grandes correntes, monta-se um jogo de forças capaz tanto de absorver parcelas de poder quanto de imaginar novos caminhos dialéticos de negociação entre elas. Grandes eventos mundiais, como a Conferência do Rio de Janeiro de 1992, a muitas vezes esquecida Agenda Local 21 e os novos ODS, são exemplos dessa dinâmica, planejada desde o topo da pirâmide de poder, enquanto o planeta segue sendo devastado.

A declaração do espaço independente e livre na Internet, assim como a formação de comunidades neo-rurais autossuficientes, como as da rede G.E.N., ‘Terra Vivante’ ou ‘C.A.T.’, são propostas que emergem da base da pirâmide.

Tanto nas propostas ‘Pós-modernas’ quanto nas da ‘Nova era’, não estamos tratando de programas de classe ou tipologias, que atualmente perdem sua capacidade de classificação, mas sim de posicionamentos de acordo com os mundos de referência: o super-mundo global, marcado pela dinâmica das mídias de massa e pela cultura do reprocessamento de produtos culturais, dialeticamente complementar ao mini-mundo local, caracterizado pelo contato pessoal e pela vivência com o ambiente natural.


4 Diagnóstico do estado atual


Não estamos apenas testemunhando uma crise nos níveis que a oligarquia técnico-política impõe aos cidadãos, mas também a crise do próprio conceito de planejamento, em consonância com a crise dos conceitos de progresso e de crescimento.

Esta overdose de informações, impossível de ser manipulada pelo cidadão médio, o direciona à inibição da ação e da participação. Nas pequenas aldeias, o prefeito costuma ser mais acessível; quando não é exatamente afável, ao menos permanece próximo ao bairro, e é possível comentar com ele qualquer questão da comunidade com absoluta naturalidade — a menos, é claro, que haja algum rancor histórico. Entre outras razões, isso acontece porque ele sabe que os vizinhos estarão novamente ali no dia seguinte.

Todas as propostas e modelos que, em seu tempo, foram considerados “utopias” — desde as cidades renascentistas, as cidadelas de Leonardo, até as propostas tecnoecológicas contemporâneas, como o Parc Bit em Maiorca ou as cidades-ilha do Japão; as propostas regionalistas da cidade-jardim de Howard; ou ainda as cidades modernas de Le Corbusier e Frank Lloyd Wright — não são nada além de modelos afastados da realidade. Não por serem irrealizáveis ou fantasiosos, mas pelo poder avassalador do poder factual: o dono da terra, o especulador. Projetos contemporâneos morreram antes de nascer, e a própria legislação, outrora preocupada com os perigos da urbanização dispersa, hoje impede o surgimento de núcleos populacionais em ambientes naturais — mesmo quando demonstram plena integração com eles.

Por outro lado, o planejamento está associado à ideia de um grupo de elite — um grande professor, um renomado designer ou um funcionário com ampla experiência e sabedoria — e representa, automaticamente, o lado oposto ao interesse dos cidadãos, exceto em grandes eventos de propaganda, como os Jogos Olímpicos ou uma Exposição Universal.

Felizmente, as pessoas começam a valorizar o “como se faz o que se faz”, acima de tudo o “que está sendo feito”. A cidade, como diz Manuel Castells em Revolução, tecnologia e novos regulamentos do território, já está concluída em muitos de seus serviços e equipamentos. Agora, o projeto do ambiente urbano ganha importância, e a estética passa a atuar como um alívio diante da imperiosidade das necessidades. Onde antes se solicitava uma escola ou um CAP, agora se pede uma zona verde ou um projeto de pavimentação. Muitas vezes, o bairro reivindica essa identificação de formas que, até agora, vinha nos alienando pelos parâmetros modernos de racionalização e homogeneização, em detrimento dos ritmos naturais e da diversidade.

Mas, na prática, a administração muitas vezes atua com uma política de ações já realizadas, como as grandes obras de infraestrutura em nosso país: rodovias, variantes rodoviárias, reservatórios de água, trens de alta velocidade… Mesmo aquelas declaradas ilegais pelo Tribunal Superior não são interrompidas nem reformadas, criando um estado de fraude política e de descrédito ético diante de programas de fraternidade, como a Agenda 21, ou de apelos à participação cidadã que deveriam legitimar a democracia delegada.

4.1 Planejamento


A realidade mostra como a cidade cresce a partir do poder dos executores — os lobbies da construção nas grandes metrópoles ou as pequenas comunidades pseudo-sectárias que proliferam cada vez mais no mundo neorrural. A metrópole do Terceiro Mundo cresce sem planejamento, enquanto nas cidades do Primeiro Mundo o crescimento é planejado em paralelo à desestruturação interior. O que resta foi construído. A bipolarização é vivenciada entre estar a favor ou contra a cidade. Tribos urbanas emergem, formando novas comunidades paralelas aos antigos bairros, enquanto, ao mesmo tempo, as pessoas fogem da cidade — mesmo que seja apenas por dois dias no fim de semana — em busca de uma desintoxicação cultural, ainda que retornem à natureza desorganizada.

1 As metodologias que os sistemas, especialmente os socialistas, propuseram e, em seguida, praticaram, baseiam-se no planejamento de setores parciais a curto, médio e longo prazo — seja no urbanismo, na indústria, no sistema de saúde, na taxa de natalidade ou no transporte. Os sistemas capitalistas também aprenderam com essa experiência, não a partir da administração pública, mas da lógica empresarial. Por outro lado, trata-se de uma formulação bastante lógica, pois é o setor que produz — assim como, na órbita socialista, é o Estado que produz. Esses planos são sempre direcionados para o crescimento “econômico”, ainda que disfarçado sob outros nomes, como progresso ou bem-estar social.

O exemplo mais marcante desse tipo de plano seria o Plano Territorial Geral da Catalunha, elaborado pelo governo catalão em 1992. O Plano Intermodal do Governo da Catalunha, embora tenha sido o primeiro a formalizar um projeto que integrava todos os tipos de transporte e suas conexões comuns, também propôs a integração com as vias de comunicação das biorregiões e dos ecossistemas naturais, como as bacias hidrográficas, o acesso ao litoral e a grande área virgem dos Pirineus. Somente a partir desse momento os termos da ecologia começaram a ser incorporados — e, mais recentemente, o da sustentabilidade, atualmente até desgastado pelo uso excessivo. Na década de 1970, o estado do meio ambiente, os ecossistemas e outros seres vivos só eram considerados sob a ótica da exploração agrícola.

2 Os resultados desse tipo de plano são totalmente ineficientes, devido ao empobrecimento do Estado, que precisa resolver os problemas gerados por uma produção linear que desconsidera as externalidades. Isso induz uma política fiscal que também nos obriga a pagar pelo que existe, em vez de pagar pelo que é malfeito. Por exemplo, a criação de grandes redes de transporte de cargas e energia, a ampliação do aparato burocrático do Estado e os custos sociais da massificação populacional em espaços confinados, sem que as necessidades básicas estejam coberta.

3 Mais tarde, os setores mais progressistas passaram a propor planos estratégicos — não como uma alternativa isolada, mas como um suplemento ao planejamento existente. Foram a primeira tentativa de refletir, em um único documento, a integridade do sistema urbano, propondo ações que aparentemente vinculassem os problemas ao mesmo tempo, englobando tudo o que implicava a ação coordenada de diversos agentes sociais: empresas, associações e diferentes administrações. Apesar do grande aprimoramento conceitual desses planos estratégicos, até o momento, eles ainda permanecem centrados no sistema urbano, sem integrar plenamente o restante do ecossistema.

4 Apenas uma década atrás, a falta de respeito pelo meio ambiente ficou evidente, e foi criada a figura dos estudos de impacto ambiental — o EIA. No entanto, já surgiu como um remendo, destinado a minimizar os danos. Eles permanecem como um anexo aos planos gerais, na margem, imersos na dinâmica e nos objetivos do crescimento econômico do programa político vigente. Como se sabe, os EIAs são encomendados e pagos pelo mesmo agente responsável pela execução do projeto e, portanto, nunca houve um estudo totalmente livre de pressões ou da possibilidade de veto à realização do trabalho estudado. Esses estudos dificilmente podem ser considerados realmente “estudos”, pois apenas o escopo restrito do projeto é analisado, mesmo que isso envolva, por exemplo, a construção de uma autoestrada que corte cinquenta pequenos ecossistemas diferentes.

5 Recentemente, as estratégias passaram a incluir dois sistemas recém-formulados, de conceitos diferentes, mas totalmente complementares: auditorias ambientais e indicadores socioecológicos. Para expressar em poucas palavras, o passo conceitual é muito importante. Não se trata apenas de planos de proposta, mas de avaliações do estado das coisas. Por meio de uma auditoria ecológica, todos os parâmetros de avaliação são analisados no nível ambiental e das atividades socioculturais, incluindo as relações sistêmicas que podem ser estabelecidas. Esse método busca mapear o ecossistema cidade-rodal.

Os sistemas de indicadores, como os propostos por Settle com cerca de 100 itens, foram criados para refletir todas essas avaliações do ambiente natural, de modo que a população possa ter acesso a informações permanentemente atualizadas. Nesse sentido, testemunhamos dados úteis para o cidadão, permitindo, assim, articular posteriormente estratégias de ação mais confiáveis.

4.2 Ação

Embora os modelos possam ser propostos, trazendo irremediavelmente a cultura à execução, eles não se mostram eficazes, devido à complexidade envolvida e à rejeição das partes interessadas: propositores, executores, usuários etc.

Aqui somos apresentados a um grande problema: embora não estejamos utilizando modelos formais, os elementos já existem — propositores, executores, usuários. Estamos, portanto, operando sem reflexão, sem participação e de maneira diametralmente oposta a um desempenho ecológico ou sustentável, especialmente quando os agentes são distintos. No entanto, quando os agentes se fundem em uma mesma figura, e a única constante é o usuário, então é possível encontrar uma dinâmica consistente com as diretrizes de autogestão.

1 As propostas de ação teórica são apresentadas de formas muito diferentes, em espaços diversos e em atividades culturais variadas. Essencialmente, podemos diferenciar três modelos: Gaia, de James Lovelock, sugere que o planeta pode resolver qualquer tipo de desequilíbrio e que a ação humana é inconsequente, já que Gaia sempre encontra um modo de retornar ao equilíbrio — sem comentários, embora seja demonstrativo.

A teoria da transdisciplinaridade nos oferece uma tecnocracia “ecológica” que apoia as decisões do poder. É evidente que ela se baseia na corrente especializada, adaptada à complexidade da totalidade, mas também é claro que essa concepção carrega os mesmos perigos que já enfrentamos até agora. Não se trata apenas de representar uma mudança radical de valores, e possivelmente não depende apenas de toda a humanidade agir de forma coerente — incluindo a diferenciação de classes e, portanto, a legitimidade do “ato”. Como tem ocorrido até o momento, essa proposta segue fundamentada na desburocratização de licenças e nas limitações regulatórias de caráter policial.

Finalmente, há a posição da chamada “energia intuitiva”, que propõe uma tendência de ação livre e coerente, vinculada a concepções espiritualistas e ácratas. Essa perspectiva é, evidentemente, a mais distante de todos os esquemas racionalistas predominantes na dinâmica atual e, consequentemente, a menos pragmática em relação às ações urgentes que começamos a reivindicar.

2 As ações dos agentes atuais são, em grande parte, fruto da inércia contratual: “O tempo é dinheiro”, “precisamos crescer 3% ao ano ou entraremos em crise”. Não há outra premissa — é preciso agir, fazer algo, qualquer coisa, mesmo que seja apenas para criar uma aparência de movimento e dar a sensação de que algo está sendo feito. A superpopulação humana, aliada à industrialização de trabalhos complexos que exigem grande esforço, levou à criação de planos de emprego, pois aparentemente não há trabalho suficiente para todos.

Como vemos, esse círculo vicioso nos faz perder os objetivos finais, substituindo-os por pequenas metas de emergência cotidiana. As disfunções desse estado se refletem na proliferação de voluntariados e organizações não governamentais que acabam substituindo o papel da administração pública — esta, por sua vez, não demonstra interesse em agir de acordo com o que realmente funciona e, sobretudo, não incentiva a auto-organização nem a autoconfiança.

3 Nesta mesma situação encontramos as associações de vizinhos — pequenas ONGs locais ou de bairro — que possuem o melhor conhecimento sobre os problemas e demandas do cidadão. Pode-se argumentar que essas pequenas organizações não têm capacidade técnica ou pessoal para lidar plenamente com tais questões, mas até poucos anos atrás, nem mesmo os conselhos municipais ou os departamentos provinciais de meio ambiente dispunham dessa capacidade.

Como é possível, então, que não lhes seja concedido nenhum tipo de poder de gestão sobre seu próprio ambiente? Ou melhor ainda: por que não se reivindica esse poder?

Isso ocorre porque os partidos políticos estão enraizados em um sistema claramente hierárquico, no qual os mecanismos de delegação da democracia atual se diluem até se tornarem praticamente inacessíveis ao cidadão comum — algo que não é tão evidente nas chamadas ONGs internacionais.

Essa situação nos leva a contradições evidentes: cidades com total ausência de participação efetiva, mas que, ao mesmo tempo, apresentam um tecido associativo relevante, com grande número de afiliados a diferentes ONGs. A administração pública perdeu credibilidade em sua direção voltada ao “macroprogresso”, enquanto cresce o reconhecimento do valor presente nos movimentos baseados na diversidade, na harmonia e na autogestão.

 

4.3 Progresso e crescimento

1 Atualmente, o monitoramento do estado da civilização é feito principalmente por indicadores econômicos, como o PIB, ou outras métricas que medem o poder de compra e a riqueza monetária dos cidadãos. Ao mesmo tempo, o senso popular nos lembra que “dinheiro não faz a felicidade”. Então, para onde está realmente indo a civilização? Está direcionada apenas ao acúmulo de dinheiro ou à valorização da felicidade? E como poderíamos medir a felicidade de uma pessoa para identificar desequilíbrios e organizar um planejamento que de fato os resolva?

2 As direções programáticas foram concluídas, e os esquemas partidários funcionam, em grande parte, como mecanismos alienadores, desviando o poder decisório e expondo-nos a abusos cada vez maiores. Os cidadãos atentos concentram-se apenas em assuntos muito específicos e altamente moldados por sistemas propagandísticos, como futebol ou Olimpíadas, enquanto propostas coletivas para o futuro praticamente não avançam. Existe apenas um único futuro institucionalmente definido ou um futuro comunitário, segundo as próprias diretrizes de grupos menores, pelo simples motivo de que esses grupos, por serem de tamanho auto-definido, permitem um certo controle e, consequentemente, reduzem a complexidade do processo decisório.

3 Até agora, os sistemas sociopolíticos justificaram sua operação a partir de uma perspectiva científica e racional. É óbvio que essa tem sido uma grande falácia, a mentira de que a humanidade poderia dominar a natureza, conduzindo-nos ao estado esquizoide da sociedade ocidental: um autoengano nas bases do próprio funcionamento sociocultural. Como explicado no início, os sistemas culturais são governados por leis sociais, e não naturais. Por outro lado, foi pretensioso acreditar que seríamos capazes de montar um sistema artificial desconectado dos sistemas naturais. Em suma, é necessário perceber que devemos viver em um mundo inter-relacionado entre cultura e natureza, governado por leis físicas, eletromagnéticas, quânticas, éticas, morais e emocionais. Enquanto a cultura é o presente, ela se baseia em leis rigorosas relativas à organização do grupo e à delimitação e conformação física de seu espaço — a cidade…


Economistas têm sido os que mais sofreram com o paradoxo de tentar argumentar sobre o mundo enquanto, na realidade, estavam apoiados em um contexto emocional e traumatizados, segundo S. Freud, devido à auto-supressão do sistema cultural. Além disso, eles possuem mais conhecimento lógico-racional e mais dados e informações, o que nos permite familiarizar-nos melhor com as leis naturais, as leis da ecologia e os critérios que agora temos para resolver conflitos entre o espaço natural e o espaço cultural.

Urbanistas (aqueles que seguem uma ideologia urbana) não sofrem com esse dilema. Eles ainda empunham o provérbio alemão: “O ar da cidade torna livre”, compreendendo que a concepção da cidade sempre foi a do criador acima da natureza, o que a tornava, muitas vezes, inóspita para o ser humano. De fato, hospitalidade e hospitais estavam localizados na cidade durante a Idade Média até o fim da Revolução Industrial, quando se percebeu que eram muito mais acolhedores no campo e que os centros de saúde funcionavam de forma mais benigna em um ambiente natural.


5 Alternativas equilibradas

Como já apontado, chegamos a uma etapa diferente com as auditorias ambientais. Não se trata de propostas de progresso, mas de uma medição exaustiva de todos os níveis do ambiente, cultural e natural. É um esforço para conhecer o estado do meio ambiente e, assim, possibilitar decisões mais fundamentadas para ações subsequentes. É importante notar a diferença conceitual: tratam-se de figuras totalmente distintas dos planos, embora possam ser complementares caso as equipes atuem de forma realmente inter- e intradisciplinar. É por meio desse conhecimento exaustivo que a auditoria proporciona que se elabora a compreensão necessária. Mas, uma vez coletados todos esses dados, qual é o próximo passo? Por enquanto, é evidente que um cronograma é necessário para corrigir os impactos já desencadeados sobre o meio ambiente. E, nesse contexto, onde se encontra o conceito de “progresso”?

5.1 Meio e Objetivo

No nível teórico, não há propostas para modelos completos, mas sim um acordo sobre valores comuns, os quais, uma vez definidos, tornam-se difíceis de conciliar devido aos interesses opostos.

Os padrões físicos em que nos movemos não devem ser mais rígidos do que aqueles permitidos pelas auditorias sobre o ambiente natural, que nos mostram até que ponto estamos danificando-o.

As limitações natural-culturais são determinadas pela capacidade de relacionamento, incluindo a participação em um grupo ou bairro específico, a bagagem de conhecimento que cada indivíduo possui e, claro, o desenvolvimento da liberdade pessoal que nos permite lidar com os problemas atuais.

Nesse sentido, surge uma metodologia simples, de acordo com o sistema de indicadores de Seattle, que nos expõe níveis de parâmetros ambientais e sociais: poluição, desemprego, índice de criminalidade, escolaridade e outros indicadores de desenvolvimento sustentável. Esses dados são atualizados regularmente e divulgados para conscientizar os cidadãos.

A utilização desses indicadores traz o risco de padronizar ou limitar a visão do indivíduo; em outras culturas mais passivas, será necessário articular essa informação de outra forma. No entanto, seu grande valor está em fornecer conhecimento paralelo sobre o objetivo médio, permitindo que cada pessoa compreenda como deseja circular e agir, sem justificar inconscientemente seus meios.

5.2 Participação cidadã

Um exemplo brilhante e fértil que se apresenta quase diariamente é o de Curitiba, no Brasil, onde o planejamento é fortemente apoiado, quando não substituído, pelo imediatismo das ações e pela espontaneidade, adaptando-se ao ritmo imposto pelas necessidades do momento.

Em Curitiba, porém, encontramos um substituto para a ação direta dos cidadãos: o prefeito, uma figura carismática, atua simultaneamente como propositor e executor. Arquiteto de formação, ele realiza reformas urbanas com tamanha proximidade que, em alguns casos, as decisões são tomadas na própria rua, em interação direta com os pedestres.

Essa é a verdadeira dinâmica do povo — e refiro-me aqui à aldeia-vila, não às grandes massas urbanas —, composta por vizinhos que compartilham o mesmo espaço, onde todos se conhecem e sabem, não por meio de referendos, mas pela convivência, o que realmente desejam.

 


Nesse sentido, S. Van der Ryn, em Design Ecológico, propõe uma série de princípios, sendo o primeiro deles o de que o conhecimento ecológico começa com o entendimento íntimo de um lugar específico e, portanto, em pequena escala. Em suma, encontrar a escala adequada da comunidade é o que torna um projeto, e consequentemente sua cidade, verdadeiramente viável.

Outro de seus princípios afirma que ninguém é apenas participante ou apenas designer: todos são, ao mesmo tempo, participantes e designers. Essa ideia indica a necessidade de uma dinâmica plena em cada um dos indivíduos para que, juntos, possam empreender uma dinâmica igualmente completa no grupo.


No mesmo sentido, Christopher Alexander indica que a formação de um ambiente completo só ocorre quando todos os seus elementos integrais estão concluídos e compartilham uma linguagem coerente de comunicação e construção.

Pensar
Global
Meditativo
Trans-geracional
Acrônico
Atuar
Local
Espontânea
Intra-geracional
Síncrono


5.3 A justa medida completa


Que tamanhos são os horários optimos?


Qual é a quantidade de informações complexas que somos capazes de assumir, digerir, pensar e finalmente transformar em ação consciente e coerente?

É bastante difícil responder a essa pergunta, devido à multiplicidade de fatores e valores próprios de cada cultura, de cada grupo ou família: a densidade, a relação de confiança com um possível líder, a intimidade e coesão dentro do grupo, o desenvolvimento tecnológico, a fertilidade do espaço em que se desenvolvem todas as culturas…


Talvez a metodologia inter-intradisciplinar mais simples a ser usada dentro desse ambiente quase assemblear para a vida cotidiana e o imediatismo seja a redefinição dos espaços de gestão — não segundo gostos pessoais, mas de acordo com a adequação ao ecossistema.


Quais são as formas que obtemos?

Definir o uso e a gestão das terras com base no bairro, em vez da propriedade privada.

II.- Definir a cidade compacta, de acordo com o tamanho consistente com o conhecimento disponível, possibilitando a aplicação da democracia e a ação direta.

III.- Estabelecer as relações e dimensões entre a cidade e seu entorno, considerando os recursos, a pegada ecológica e a interação entre áreas urbanas e naturais, incluindo zonas rurais intermediárias que funcionem como “jardins”, de maneira semelhante ao conceito legal de pré-parque.

IV.- Determinar as relações e dimensões da rede urbana e de seus nós, organizando uma rede de núcleos dentro de uma área de modo a atender às necessidades e serviços socioculturais da população sem gerar concentração excessiva. Na prática, trata-se de mapear regiões culturais, podendo-se utilizar referências temporais ou históricas, como os condados do Empordà, Pla de Bages, Osona, ou comunidades como os Países Catalães.

V.- Definir a área bioregional que contemple essa rede de núcleos urbanos dentro de um espaço sistêmico, garantindo que áreas históricas retornem aos limites dos espaços naturais e não sejam alvo de conquista, como os Pirineus, a bacia do rio Ebro e a Costa Brava.


Nesses dois últimos pontos, estamos tratando da região cultural em relação à região natural. É nesse encontro que ocorre a reconciliação entre natureza e cultura, permitindo, certamente, uma redefinição dos sistemas de gestão e da função sociocultural das regiões naturais.


Não devemos apenas medir as cidades de forma biológica, utilizando conceitos como a carga ecológica ou a capacidade de suporte de uma região, conforme exposto por Daly, Catton (1986) e Garrett (1991), ou a pegada ecológica urbana em relação ao espaço rural-natural, apresentada por Rees (1996). Devemos também reconhecer que isso nos leva à necessidade de definir a capacidade cognitiva coerente da comunidade.


Ou seja, é necessário medir tanto o tamanho biológico da cidade quanto o tamanho cultural do seu organismo urbano, considerando que, assim como nos ecossistemas, a cidade estabelece relações com ecossistemas de maior escala por meio do fluxo excedente que se projeta para fora da nossa biorregião cultural.

A metodologia proposta por Christopher Alexander baseia-se claramente na interação dialética entre cidade e cidadão: um está completo na medida em que o outro o é. A cidade é transformada pelas ações de milhares de cidadãos individuais, enquanto cada cidadão se readapta à cidade de forma coerente, mantendo alguma consciência coletiva das formas e dimensões urbanas.

A peça-chave é, obviamente, a linguagem comum, que possibilita essa fluidez de troca, e nunca deve ser herança exclusiva de um programador de elite, seja político ou técnico.

Em uma comparação biológica interessante, podemos entender como a soma de pequenos atos orgânicos forma um corpo consistente, como o de uma árvore, ou como ocorre em uma floresta em diferentes escalas. De forma análoga, seria identificável na cidade se a soma dos pequenos atos dos cidadãos fosse coerente. Aqui surge a grande dificuldade da proposta: como o crescimento biológico consegue manter o sistema permanentemente em equilíbrio durante todas as etapas de seu desenvolvimento? Como os povos conseguem preservar essa coerência, enquanto as cidades de hoje já não conseguem?


O pensamento global envolve valores globais, uma ética global? Se assim for, quais seriam esses valores? Conceitos que deveriam ser de responsabilidade de entidades como a ONU precisam ser muito claros na hora de agir. Mas, será que realmente precisamos de algum tipo de governo? Ou seria suficiente a segurança no próprio caminho pessoal e a identificação de cada um de nós para atuar de forma responsável?


Parece, portanto, que temos duas metodologias possíveis para lidar com os problemas atuais: uma ascendente, crescente e globalizante, que exigiria expandir a capacidade de conhecimento, discussão, meditação e colaboração, trabalhando em equipes transdisciplinares espalhadas pelo mundo, em todos os setores técnicos, de modo que todos pudessem acessar as informações e apresentar propostas, alcançando um nível crítico de debate – como um sistema baseado na Internet. Outra metodologia seria descendente, local e de bairro, reduzindo o escopo espacial para oferecer soluções de forma que qualquer membro do grupo, mesmo com capacidade tecnológica limitada, disponha de todas as informações necessárias para participar efetivamente do debate e do trabalho – como um sistema de associações de bairros.


É claro que eu apostaria no caminho descendente, por ser o único capaz de controlar seu próprio ciclo de aprendizado, erro e consciência, mas também é evidente que existem forças culturais e econômicas que nos empurram na outra direção, além de grandes poderes políticos e econômicos que controlam a atividade dos vizinhos, de modo que nunca haja capacidade decisiva.


Talvez o mais preciso seja reconhecer que esses dois caminhos não são totalmente claros, sendo percorridos pela humanidade em diferentes regiões do planeta e em distintos estágios de maturidade, sem que isso signifique que os mais ricos sejam os mais maduros. Uma hipótese é que alguns têm a vantagem de uma história cultural mais longa, conseguindo um corpo de informações culturais mais equilibrado. Isso, porém, não implica que devemos seguir o mesmo caminho, já que não compartilhamos as mesmas raízes nem a mesma experiência histórico-cultural.

Além dessa bagagem, sempre pensei que um dia os historiadores terão muito trabalho e serão devidamente valorizados, de acordo com o máximo princípio de que “informação é poder”. Como explicar, senão, a prática quase completa de aniquilação do estudo da história nas universidades desde a implementação dos novos programas neoliberais? A atitude contemporânea mais eficiente pode ser aquela que busca um conhecimento mais amplo em todas as áreas, integrado e conectado a processos críticos e aleatórios de discussão, debate e ação direta, experimentando erros e assumindo-os em vez de delegá-los, liberando assim as inibições culturais que ainda persistem. Esse tipo de abordagem será sempre mais enriquecedor do que o conhecimento específico restrito à lógica e aos métodos científicos convencionais.

NATUREZA – NATIVOCULTURA – CULTIVO
Espaço VirgemEspaço Urbano
Eco SistemaPolis-Sistema
Comportamento biofísico-eletromagnético-quánticoComportamento sociopolítico
Mapa físicoMapa político
Capacidade de CargaCapacidade Cognitiva Consistente

Apesar do trabalho que isso representa, muitas vezes o objetivo acaba se tornando um método, e o método, por sua vez, se transforma em objetivo, pois a natureza ainda nos apresenta uma boa dose de caos. E isso perdura!

Jordi Badia Pasqual

Sabadell, 11 de julho, 1997

Bibliografia

Article Desenvolupament Sostenible: J. Xercavins

Ludus Vitalis

revista de Filosofia de les Ciències

Vol V núm 8 1997, 1

Centro de Estudios Filosóficos Políticos y Sociales Vicente Lombardo Toledano. Mexico

ISSN 1133-5165

1993 Barcelona

iTGS.Teoria General de Sistemes https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_geral_de_sistemas
A teoria geral de sistemas não busca solucionar problemas ou tentar soluções práticas, mas sim produzir teorias e formulações conceituais que possam criar condições de aplicação na realidade empírica.

iihttps://pt.wikipedia.org/wiki/Nosso_Futuro_Roubado
Nosso Futuro Roubado: Estamos Ameaçando Nossa Fertilidade, Inteligência e Sobrevivência? é um livro do ano de 1996 de autoria de Theo Colborn, Dianne Dumanoski e John Peterson Myers,

iiihttps://www.inca.gov.br/en/node/1918

As evidências sugerem que a exposição crônica à radiação não ionizante de baixa frequência e fontes de campos eletromagnéticos de frequência extremamente baixa pode aumentar o risco de câncer em crianças e adultos.

ivFake-news. Termo introduzido na revisão do texto em 2020,

O termo “fake news” traduzido por “Notícias fodidas” lançado pelos “Mass midia”, para se diferenciar na qualidade das suas notícias das notícias dos canais livres pela internet. Mas também para ocultar ou tergiversar o termo clássico de “mentira” e assim não ser acusados de difamadores ou calúnias nos seus canais de notícias oficiais

vJoan Martínez Alier (Barcelona, España, 1939) es un economista catalán. Es catedrático de Economía e Historia Económica de la Universidad Autónoma de Barcelona. https://es.wikipedia.org/wiki/Joan_Mart%C3%ADnez_Alier

viFredric Jameson is an American literary critic, philosopher and Marxist political theorist. He is best known for his analysis of contemporary cultural trends, particularly his analysis of postmodernity and capitalism
https://en.wikipedia.org/wiki/Fredric_Jameson

viiMike Davis
http://www.harvarddesignmagazine.org/issues/8/ecology-of-fear-by-mike-davis

https://www.researchgate.net/publication/208573767_The_Ecology_of_Fear

viiiFredric Jameson, Postmodernism, or The Cultural Logic of Late Capitalism https://is.muni.cz/el/1423/jaro2016/SOC757/um/61816962/Jameson_The_cultural_logic.pdf

ixSant Bernardo e a ordem de Cister.

https://www.infopedia.pt/$mosteiro-de-cister

xOrganização das missões jesuíticas.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Miss%C3%B5es_jesu%C3%ADticas_na_Am%C3%A9rica

xiCidade renascentista de Leonardo da Vinci

xiiComunidade de Artistas de Darmstad.

https://en.wikipedia.org/wiki/Darmstadt_Artists%27_Colony

xiiiCidade jardim – https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.042/637

Ebenezer Howard https://en.wikipedia.org/wiki/Ebenezer_

Howard. https://urbanidades.arq.br/2008/10/13/ebenezer-howard-e-a-cidade-jardim/

xivFalanstério era a denominação das comunidades intencionais idealizadas pelo filósofo francês Charles Fourier https://pt.wikipedia.org/wiki/Falanst%C3%A9rio

xvA Cidade radiante de le Corbiusier.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ville_Radieuse

xviTaliesin West. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ville_Radieuse

xvii Broadacre City. https://en.wikipedia.org/wiki/Broadacre_City

xviii Kibbutz. https://en.wikipedia.org/wiki/Kibbutz

xixGlobal ecovillage network. https://en.wikipedia.org/wiki/Global_Ecovillage_Network

xx Findhorn. https://en.wikipedia.org/wiki/Findhorn_Foundation

xxiAuroville. https://en.wikipedia.org/wiki/Auroville

xxii Christiania. https://pt.wikipedia.org/wiki/Christiania

xxiii Arcosanti. https://en.wikipedia.org/wiki/Arcosanti

xxiv Comunidades Hippies.

https://www.vix.com/es/imj/mundo/155566/5-comunas-o-comunidades-hippies-alrededor-del-mundo

https://actualidad.rt.com/sociedad/166979-eeuu-comunidad-hippie-utopia

xxv Centre for Alternative Technology. CAT. https://www.cat.org.uk/

xxvi Squatting, https://en.wikipedia.org/wiki/Squatting

xxviiChirstopher Alexander
https://en.wikipedia.org/wiki/Christopher_Alexander

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Nature_of_Order



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